Quarta-feira, 9 de Julho de 2008

Dez linhas que fossem boas

Ofereci à Júlia ML este contributo para uma tese que lhe é cara. Mas depois apeteceu-me trazê-lo para aqui, porque é dos textos mais belos e sábios que já li sobre o acto de escrever.

 

 

“...Devia-se esperar e acumular sentido e doçura ao longo de toda uma vida, e esta ser tão longa quanto possível, e então, mesmo no fim dela, talvez se pudesse escrever dez linhas que fossem boas.


Pois os versos não são sentimentos (esses têm-se cedo que baste), - são experiências. Por causa de um verso, tem de se ver muitas cidades, pessoas e coisas, tem de se conhecer os animais, tem de se sentir como os pássaros voam e de saber os gestos com que as pequenas flores se abrem pela manhã. Tem de se poder voltar com o pensamento a caminhos de regiões desconhecidas, a encontros inesperados e a despedidas (...)

(...) E também não chega que se tenha lembranças. Tem de se poder esquecê-las se forem muitas e tem de se ter a grande paciência de esperar que elas regressem.

Porque as próprias recordações ainda não são nada. Só quando se tornam sangue em nós, e olhar e gestos, já sem nome e impossíveis de distinguir de nós mesmos, só então pode acontecer que, numa hora muito rara, desponte no meio delas a primeira palavra de um verso e delas se desprenda.”

(Rainer Maria Rilke, in Cartas a um Jovem Poeta)

 

publicado por Ana Vidal às 01:58
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7 comentários:
De Cristina Ribeiro a 9 de Julho de 2008 às 13:21
Verdade, verdadinha: muito belo e sábio.
Beijinho
De Ana Vidal a 9 de Julho de 2008 às 13:47
Beijinho, Cristina.
De Júlia a 11 de Julho de 2008 às 17:33
querida Ana,

Não vi o post, , vou directa ao primeiro,não sei como faço...

É isso aí! Rilke tem sempre razão,também tem razão ao estipular a fórmula que diz se a pessoa é poeta ou não. - Nela me basei quando disse que tu ÉS UMA POETA! Paráfrase fácil, diria o nosso amigo iluminado.

é essa parte do lvro que postarei e que é tua por direito :-)

xi-coração
De O Réprobo a 9 de Julho de 2008 às 14:51
Sobre o problema de fundo opinei lá. Quanto a Rilke, de que gosto muito da Poesia e da prosa dos «Cadernos...», neste trabalho acaba a dizer o contrário do que começou...
Beijinho
De Ana Vidal a 9 de Julho de 2008 às 15:25
Não acho que ele se contradiga, Paulo...
De pedro a 9 de Julho de 2008 às 21:15
É dos que está na mesa-de-cabeceira.
De Ana Vidal a 9 de Julho de 2008 às 21:49
Na minha também, Pedro.
:)

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