Terça-feira, 8 de Julho de 2008

Na praia

 

Volto do banho de mar revigorada e de bem com o mundo. Poucos momentos me proporcionam um prazer tão intenso como estes em que o meu corpo, ainda frio e a escorrer água salgada, recebe em cheio o beijo quente do sol. É um prazer solitário e íntimo, de perfeita comunhão com a natureza. Em tempos idos, todo este luxo era ainda potenciado por um cigarro, talvez o melhor de todos os que me lembro. Agora já não. Mas mantém-se a sensação de Vida, palpitante e intensa como nunca.

 

Deito-me ao sol e fecho os olhos, para ver tudo o que vejo sem eles. Em fundo, o rumor manso das ondas, cadenciado e hipnótico. À minha volta há gente, demasiada gente. Tento abstrair-me das conversas mas é impossível, estão demasiado próximas. Demasiado presentes. São demasiado invasivas. Resigno-me e ouço-as. É o que acontece a quem não tem uma ilha privada para celebrar o casamento entre o sol e o mar. Infelizmente, não posso fechar também os ouvidos. Esqueci-me do bendito Ipod.

 

Atrás de mim, duas vozes femininas cujas donas não vejo. Parecem-me maduras e tensas. Amargas. De uma dessas vozes escorre claramente outra água salgada, aquela que nasce nos olhos e desagua sabe Deus onde, sabe Deus quando. Diz: "E agora, o que é que eu faço?". A outra voz, mais solta, responde-lhe: "Nada. Não fazes nada. Esperas que isso lhe passe". De novo a primeira voz, onde agora crescem pedregulhos de sal na água que jorrava: "Era o que faltava! Eles dizem que são só amigos, mas eu sei que é mentira. Uma mulher sabe sempre essas coisas...". "Não faças nada", repete a segunda voz, onde os muros de sal são mais antigos: "Tudo o que fizeres só vai servir para juntá-los ainda mais. Olha que eu sei do que falo".

 

Levanto-me outra vez, incomodada, e desço até ao mar. Já me estragaram a tarde. Mas não posso queixar-me muito, afinal. A elas, já lhes estragaram a vida. 

 

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publicado por Ana Vidal às 12:53
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24 comentários:
De CNS a 8 de Julho de 2008 às 14:42
Se não fizermos nada talvez tudo fique comodamente igual àquilo que pensamos ser seguro.

Muito bom.

Um abraço
De Ana Vidal a 8 de Julho de 2008 às 15:16
Incomodamente igual, Cristina, diria eu. E é pura ilusão, isso de ser seguro.
Abraço
De Júlia a 8 de Julho de 2008 às 22:30

que raiva, Ana...estou roida de inveja. aqui está um vento frio, que nem penso em praia, não consigo estar sem casaco.:-(

De Júlia a 8 de Julho de 2008 às 22:36

só agora consegui ler o texto, estou com dificuldades de conexºao da net.

Sabes? um texto só é bom quando incomoda - INCOMODOU-ME!

beijo grande
De Ana Vidal a 8 de Julho de 2008 às 23:57
A mim também incomodou o que ouvi, Júlia.
Beijo
De Júlia a 9 de Julho de 2008 às 00:54

pois,mas soubeste descrever o teu incómodo tão bem que conseguiste incomodar-nos.

ps- vai para o meu baú :-)
De O Réprobo a 8 de Julho de 2008 às 18:11
E porque é que a Menina não lhes disse como o Cínico a Alexandre: saiam de diante do meu Sol?
Beijinho
De Ana Vidal a 8 de Julho de 2008 às 23:55
Porque não sou tão cínica como ele, e porque me impressionou nelas tanta incapacidade de gozarem o MEU Sol!
beijinho
De Cristina Ribeiro a 8 de Julho de 2008 às 20:41
Vidas que se contam. Males que se testemunham...
De Ana Vidal a 8 de Julho de 2008 às 23:54
Coisas que nos fazem pensar, Cristina...
De fugidia a 8 de Julho de 2008 às 21:20


Ainda hoje conversei sobre este tema...
Eu não seria capaz de "esperar que passe". Mas do mesmo modo não consigo fazer juízos valorativos sobre quem "consegue" esperar...

Beijinhos, Ana; para a próxima já sabe: não se esqueça da música (mas lá se vai o som do mar...)
De Ana Vidal a 8 de Julho de 2008 às 23:52
Também não faço juízos, Fugi. Cada um sabe de si. Mas quando vejo tanto azedume e descrença na vida, pergunto-me se terá valido a pena...
Para a próxima não me esqueço do Ipod, de certeza!
Beijinhos
De fugidia a 9 de Julho de 2008 às 00:24
Acho que não vale...
De Ana Vidal a 9 de Julho de 2008 às 00:30
Também me parece. E acho muito temerário dar conselhos como os que ouvi à segunda mulher, que era mais velha e mais azeda. No fim, ainda ouvi à primeira a rendição: "Achas? Se calhar tens razão..."
E fiquei com pena de tudo aquilo.
De marilia jackelyne a 8 de Julho de 2008 às 21:30
por essas e outras, prefiro a praia à noite - pra ver o casamento de mar e lua: "jaciobá".

De Ana Vidal a 8 de Julho de 2008 às 23:49
Também gosto da praia à noite, Marília, mas aqui é raro haver noites tão quentes como no Brasil...
De SC a 8 de Julho de 2008 às 23:56
Uma viagem de sensações, este post . Que começa com a maravilhosa comunhão com o mar, depois com o sol, continua com a frase certeira que diz tanto "fecho os olhos, para ver tudo o que vejo sem eles". Segue-se o acordar para a realidade, as praias cheias, a invasão do nosso (bem) estar e termina com a tragédia real alheia, que, pelos vistos, também vai a banhos.

Gostei muito, ainda que de final amargo.
De Ana Vidal a 9 de Julho de 2008 às 00:27
A tragédia também vai a banhos, é bem verdade. Mas não sei se sai revigorada e de bem com o mundo. Neste caso, o mar e o sol não conseguiram afugentá-la...
De Once a 9 de Julho de 2008 às 10:50
brilhantemente escrito como sempre Ana, e cheio de conclusões.
Eu .. que actualmente vivo num desses muros de sal, só não sou tão taxativa na afirmação que me estragaram a Vida.

Espero que o banho seguinte tenha desanuviado o desconforto .. :)
De Ana Vidal a 9 de Julho de 2008 às 11:05
Obrigada, Once. E fico contente por saber isso.
Cheio de conclusões? Pelo contrário, cheio de interrogações...

Mas eu tenho a minha opinião sobre o assunto, claro. Na verdade, o que eu acho é que foram aquelas mulheres que estragaram a sua própria vida, rendendo-se ao infortúnio. É sempre possível deitar abaixo os nossos muros de sal, e tanto quanto me diz a sua bela escrita, vejo que o seu está condenado à demolição. Ainda bem.
:)
De Anónimo a 9 de Julho de 2008 às 16:08
quanta sensualidade nesse primeiro parágrafo! A que praia vai, Ana, posso saber?
De Ana Vidal a 9 de Julho de 2008 às 17:17
Àquelas onde me sinto mais... anónima!
De Luísa a 9 de Julho de 2008 às 19:55
A elas estragaram a vida, é verdade, mas, felizmente, apenas uma das muitas que tiveram e vão ter. Não é menos grave, portanto, que tenham estragado esse seu momento, Ana, que, pela descrição que nos dá, parece ter valido uma vida. ;-)
De Ana Vidal a 9 de Julho de 2008 às 21:51
Valeu mesmo, Luísa. :)

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