Quinta-feira, 3 de Julho de 2008

Poemas escolhidos - 5


 

A lucidez perigosa

 

 

Estou sentindo uma clareza tão grande
que me anula como pessoa atual e comum:
é uma lucidez  vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito
do qual, no entanto, não se precise.
Estou, por assim dizer
vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo:
pois estou infinitamente maior que eu mesma,
e não me alcanço.
Além do que:
Que faço dessa lucidez?

Sei também que esta minha lucidez
pode-se tornar o inferno humano
- já me aconteceu antes.

Pois sei que
- em termos de nossa diária
e permanente acomodação
resignada à irrealidade -
essa clareza de realidade
é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve
para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir
dos modos possíveis.
Eu consisto,
Eu consisto,

Amem.
 

 

(Clarice  Lispector)

 

publicado por Ana Vidal às 01:58
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6 comentários:
De Once a 3 de Julho de 2008 às 10:20
Clarice .. sempre "tão à frente" ..
Beijinho Ana
De Ana Vidal a 3 de Julho de 2008 às 15:52
Sempre tão honesta e corajosa, sobretudo.
Beijo, Once.
De Júlia a 3 de Julho de 2008 às 16:33

A Clarice, tu sabes, tem sempre razão!...


muitos beijos


ps- também estou a pensar fazer o mesmo até me dar um repente, vamos ver até onde aguento
De Ana Vidal a 3 de Julho de 2008 às 16:53
A mim a Clarice dá sempre lições, Júlia.

Pois é, às vezes temos mesmo que parar um bocadinho, ou isto torna-se numa claustrofobia.
Beijos, vai à praia e distrai-te.
De O Réprobo a 3 de Julho de 2008 às 15:04
Querida Ana,
Belo poema e riquíssima imagem! Que o gelo queima, todos sabem, havendo até quem garanta que a manutenção da cabeça fria ilumina. Mas dada a excepcionalidade e monopolismo dos estados de percepção mais elevados, que nos colocam fora de nós, pobres condenados a compor a Realidade, o equilíbrio pode exigir hiatos.
É no entanto bom que não lhe demos muita confiança, a esterilidade imaginativa e criadora é ameaça que espreita qualquer oportunidde.
Beijinho
De Ana Vidal a 3 de Julho de 2008 às 15:56
Mas os estados de extra-lucidez, mesmo sendo terrivelmente solitários, podem ser uma excelente oportunidade de nos avaliarmos e corrigirmos a rota. Duros mas úteis, portanto, e como quase tudo uma moeda de duas faces...
Beijinho, Paulo

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