Domingo, 29 de Junho de 2008

Dançar

Já gostei muito de ballet clássico. Até tive aulas, quando era miúda, com uma mestra de luxo: Anna Mascolo. E parece que até tinha jeito. Nessa época ainda sonhava vir a ser, como provavelmente muitas meninas da minha idade,  uma prima ballerina de fama mundial. Mas passou-me depressa a fantasia, como passam todas as que não têm suficiente consistência para persistir no sonho.

 

Talvez por ter visto demasiadas vezes O Lago dos Cisnes, Romeu e Julieta ou O Quebra-Nozes, acabei por achá-los todos parecidos: esteticamente inatacáveis, mas monótonos e pouco expressivos. Sou uma leiga na matéria, mas creio que as coreografias clássicas assentam todas em três pontos fundamentais: leveza, harmonia e elegância. Assim sendo, são perfeitas para ilustrar sentimentos puros e atitudes nobres mas falham, redondamente, na expressão de estados de alma mais "duros" ou mais "irracionais". Não se exprime a raiva, o medo, o ódio ou a pulsão sexual com elegância, não é possível fazê-lo de forma convincente com movimentos lânguidos e etéreos, em tutus esvoaçantes.

 

Penso que faltava à dança clássica a ousadia de quebrar as regras, de romper a harmonia e aventurar-se na vertigem e no abismo. Cansei-me da beleza pura e virginal e deixei de "ir ao ballet". Felizmente, descobri depois coreógrafos como Balanchine, Maurice Béjart ou Pina Bausch, para citar alguns dos modernos. E com eles voltei a reconciliar-me com o bailado. Com paixão, desta vez.

 

(Baryshnikov - Vysotsky "Horses" - White Nights)

 

(Vollmond - Pina Bausch)

 

(Bolero de Ravel - Maurice Béjart)

 

Adenda: Uma coreana fantástica, roubada daqui:

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 11:51
link do post
21 comentários:
De cristina ribeiro a 29 de Junho de 2008 às 13:51
Já eu, Ana, gostando de algum deste ballet( a impressão maior da primeira vez que vi «Les Uns et Les Outres» foi este « Bolero»), continuo fã incondicional do clássico: «O Lago dos Cisnes» pela Companhia Bolshoi, o «Don Quixote» dançado por Baryshnikov...
De Ana Vidal a 29 de Junho de 2008 às 15:58
Dançado pelo Baryshnicov tudo é bom, Cristina! Até o Vira do Minho seria especial...
;)
De Júlia a 29 de Junho de 2008 às 14:36

eles recriaram,sim!...mas eu ainda gosto do puro clássico.

inhos e bom domingo, Ana
De Ana Vidal a 29 de Junho de 2008 às 15:59
É inegável a beleza do clássico, Júlia. Mas...
Bom domingo.
bj
De Teresa Ribeiro a 29 de Junho de 2008 às 15:47
Tive o privilégio de ver, um dia, o Baryshnikov a ensaiar. E à sua revelia, devo dizer. Era só ele, eu e a sala vazia. Uau! Foi mágico, inesquecível!
De Ana Vidal a 29 de Junho de 2008 às 15:56
Imagino, Teresa... que maravilha!
Mas eu não sei se teria resistido a bater-lhe palmas, pelo menos!
De O Réprobo a 29 de Junho de 2008 às 16:05
Devo confessar a minha incapacidade total de apreciar o ballet clássico. Embora não esteja tão bárbaro como pelos meus 17-18 anos em que me ofereci para acompanhar ao «Quebra-Nozes» a Irmã de um Amigo, acabanddo por adormecer, quando perante um espectáculo do género fruo sobretudo a música, esquecendo-me das acrobacias.
Não assim com outras danças de exibição, o Flamenco, por exemplo.
E sim, acho que a Ana está certa, pode-se esxprimir pathos, mas não o lado de sombra (no sentido Jungiano) dos protagonistas.
Beijinho
De Ana Vidal a 29 de Junho de 2008 às 16:33
O Flamenco é um bom exemplo do que digo: é difícil maior expressividade, e mais completa. Luz e sombra, de A a Z. Também gosto muito de Flamenco, Paulo.
Bjs
De mike a 29 de Junho de 2008 às 20:47
Ups, como dizer isto?...
Assim: Ana, eu ballet, digamos que... acompanho quem gosta, se não tiver que ser com muita frequência. Assim é mais bonito. :)
De Ana Vidal a 29 de Junho de 2008 às 21:17
Pois foi muito bem dito, Mike!
Será então um pas-de-deux sem grande vontade, mas... com muita elegância! Assim é bonito, realmente.
;)
De Rita Ferro a 29 de Junho de 2008 às 21:14
Ah, Ana, que sintonia! Subscrevo inteiramente...
De Ana Vidal a 29 de Junho de 2008 às 21:26
Rita, não é só nisto, a sintonia...
;)
De Júlia a 29 de Junho de 2008 às 22:29

mas cansa, sim, ao fim de um tempo, cansa...eu entendo!

De fugidia a 29 de Junho de 2008 às 23:31
Ups, flamengo... pode ser?


Beijinho
De fugidia a 29 de Junho de 2008 às 23:33
Nota: "flamengo" não é erro - apesar de gostar de flamenco -; é uma brincadeira com um post que fiz, da fantasia
(muitos risos)
De Ana Vidal a 29 de Junho de 2008 às 23:41
Pode ser, Fugi... numa tosta?
Eu gosto.
Beijinho :)
De Luísa a 30 de Junho de 2008 às 02:52
Sou da sua opinião, Ana. Também prefiro a irreverência das coreografias modernas. Como essa... talvez um pouco irreverente demais?
http://www.youtube.com/watch?v=I2aj79ql9iY&feature=related
:-)
De Ana Vidal a 30 de Junho de 2008 às 11:40
Irreverente demais? Nada disso, adorei.
Dançar Brel é um desafio, e a letra está tão bem interpretada!
Obrigada pela achega, querida Luísa. Fica a sugestão para quem quiser seguir o link.
:)
De Once a 30 de Junho de 2008 às 09:07
Anna Mascolo .. a professora da princesa do reino lá de casa, pontas, sapatilhas, fato e lantejoulas .. trabalho, muito trabalho, por vezes demasiado trabalho para a sua figura de mini bailaria clássica, que adora o que faz e se entrega à dança numa paixão que não vejo com frequência ..
Acho que não lhe vou dar a ler este post Querida Ana .. (sorrindo) ;)
Beijinho
De Ana Vidal a 30 de Junho de 2008 às 11:31
É melhor não lhe mostrar, de facto. Mas a Anna Mascolo ainda dá aulas? Nao me diga! Na altura ela tinha acabado de ter o filho, Bruno, que levava para a escola ainda bebé porque estava a amamentá-lo. Era o nosso brinquedo... imagine, já foi um bailarino consagrado!
O mundo é pequeno, realmente.
Beijinho
De Once a 30 de Junho de 2008 às 11:37
.. numa escola simpática perto da Estrela :) Ela um figurão, e de um profissionalismo contagiante :)
Beijinho

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

favoritos

O triunfo dos porcos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil


ver perfil

. 16 seguidores

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds