Terça-feira, 17 de Junho de 2008

Memória

 

Hoje apeteceu-me tanto, tanto, voltar à infância...

Voltar a um tempo em que não me era pedido mais do que apreender tudo o que descobria, deslumbrada, a um ritmo alucinante. Sem responsabilidades, decisões a tomar, pesos, escolhas difíceis, lutos. A um tempo em que tudo estava ainda por estrear. Até a vida.

 

Talvez por isso me tenha lembrado deste poema.

 

 Um único objecto

 

  São tantas as coisas que se misturam
  para que a memória devolva um único objecto:
  as toalhas e um cântaro com água, uma caixa de música,
  as manchas da humidade nas fotografias

  da parede, a chuva a bater nos vidros da janela,
  a escaleira de pedra, uma árvore. Mas antes
  a água primeiro escorrendo num fio por entre
  os caules das ervas; as argilas, os finíssimos grãos

  da aluvião; uma horta defendida pelos muros
  altos; os matos; o bosque: só depois
  o segredo de curar ou enlouquecer
  tocando com as mãos nos ombros das crianças:

  só depois da casa e dos caminhos de terra
  batida; só depois dos minúsculos açudes e do labirinto
  dos canais de rega; só depois das sementes
  espalhadas num chão lavrado; só depois do fogo

  e do rumor do vento nos arames das vinhas.
  São tantas as coisas que se misturam
  para que a memória devolva um único objecto:
  a faca de cortar o pão.

 

  (José Carlos Barros)

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publicado por Ana Vidal às 01:32
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16 comentários:
De JB a 17 de Junho de 2008 às 09:32
Ele há dias assim...
Ele ha dias em que nos apetece cantar (e ser) os versos que dizem que é tão bom ser pequenino, ter pai, ter mãe e ter avós.
Porque uma partilha é algo que se dá e recebe, aqui vão uns versos do Reinaldo Ferreira com que me irmano no seu desejo de reaver "a faca de cortar o pão".

Duma outra infância, inventada,
Guardo memórias que são
Reais reversos do nada
Que as verdadeiras me dão.

Estas, se acaso regressam,
Em tropel e confusão
Ao limiar-me, tropeçam
No corpo das que lá estão.

Assim, mentindo as raízes
Do meu confuso começo,
Segrego imagens felizes
Com que as funestas esqueço.
De Ana Vidal a 17 de Junho de 2008 às 12:24
Muito obrigada, JB. Gosto imenso dos poemas do Reinaldo Ferreira também, de quem tenho o único (e raro) livro publicado.
De Pedro Barbosa Pinto a 17 de Junho de 2008 às 10:07
Como é bom ser criança, sem passado que nos condicione nem futuro que nos atormente.
Só o presente. Apenas sentimentos autênticos, verdadeiros, puros...
Vivemos no Paraíso até ao dia que provamos o fruto da árvore do conhecimento.
Chegam-nos então as primeiras ansiedades.
Fomos expulsos do Paraíso!
De Ana Vidal a 17 de Junho de 2008 às 12:21
É isso, Pedro. Vai-se a inocência com o conhecimento, e é irreversível...
De sofia k. a 17 de Junho de 2008 às 10:59
Miúda, ontem no meu passeio da tarde lembrei tanto a infância! Tudo por causa de um homem que se passeia na Baixa e que é igual ao meu avô!

Lembra-me sempre uma sensação de paz, de eternidade, de magia, no tempo em que as fadas e os príncipes ainda existem, no tempo em que o quarto escuro ainda tem papões e há sempre um abraço no quarto ao lado que nos protege dos sonhos maus.

De facas lembro-me daquela com que a minha avó nos barrava a manteiga e a cobria de açúcar, na medida exacta da perfeição! Era tão bom...

beijos
De O Réprobo a 17 de Junho de 2008 às 12:28
A memória é o que nos forma, quer a que conseguimos dominar, a de momentos (embora não todos) em que fomos felizes, como a que se inscreve em nós, à revelia do que quereríamos.
Mas há um atentado contra a alegria da infância no esbatimento de memórias colectivas. falo hoje disso.
Beijinho, Querida Ana
De cristina ribeiro a 17 de Junho de 2008 às 13:34
E que bom é, Ana, quando nos concedemos um tempo de recreio para brincar com balões, porque nos reconhecemos capazes de correr atrás deles, ainda...
De Ana Vidal a 18 de Junho de 2008 às 12:35
Um tempo de recreio... é uma boa imagem, essa, Cristina.
:)
De Mariana J a 17 de Junho de 2008 às 16:30
Comentei o racismo, comentei o tamanho das balizas. Volto aqui pela terceira vez, certo de que anda por aí alguma tristeza, alguma saudade. Por vezes é apenas tristeza, por vezes (se tivermos sorte) é apenas o que o Balzac (parece-me) dizia da nostalgia: a felicidade de estar triste.
De Ana Vidal a 18 de Junho de 2008 às 12:39
Se tivermos sorte, sim, Mariana. A nostalgia é criadora. Obrigada, volte e comente sempre.
De Capitão-Mor a 17 de Junho de 2008 às 18:45
È sempre saudável fazer flashbacks até à infância. Se eu soubesse na época as tormentas que ainda iria passar..................
Abraço!
De Ana Vidal a 18 de Junho de 2008 às 12:37
O que farias, Capitão... a não ser crescer? Há outra alternativa?
Abraço de aquém-mar
De fugidia a 17 de Junho de 2008 às 18:58

É, também tenho destas vontades, de vez em quando...
De Ana Vidal a 18 de Junho de 2008 às 12:36
Fugi, quem não tem?
:)
De mike a 19 de Junho de 2008 às 00:15
Curioso... é tão raro apetecer-me voltar à infância... e a minha foi boa. Gosto do "rumor do vento nos arames das vinhas". E nem sei porquê... :)
De Ana Vidal a 19 de Junho de 2008 às 00:48
Tomo como um elogio, Mike. Rumores do vento é coisa que há muito por aqui. Nas vinhas, nos vales e nos montes. E no mar, sobretudo no mar.
:)

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