Sexta-feira, 13 de Junho de 2008

120º Aniversário

 

 

Aniversário 

 

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu era feliz e ninguém estava morto. 
Na casa antiga, até eu fazer anos era uma tradição de há séculos,  
E a alegria de todos, e a minha, estava certa com uma religião qualquer. 

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, 
Eu tinha a grande saúde de não perceber coisa nenhuma,  
De ser inteligente para entre a família, 
E de não ter as esperanças que os outros tinham por mim. 
Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. 
Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida. 

 

Sim, o que fui de suposto a mim-mesmo, 
O que fui de coração e parentesco. 
O que fui de serões de meia-província, 
O que fui de amarem-me e eu ser menino, 
O que fui — ai, meu Deus!, o que só hoje sei que fui... 
A que distância!... 
(Nem o acho... ) 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos! 

O que eu sou hoje é como a humidade no corredor do fim da casa,  
Pondo grelado nas paredes... 
O que eu sou hoje (e a casa dos que me amaram treme através das minhas lágrimas), 
O que eu sou hoje é terem vendido a casa,  
É terem morrido todos, 
É estar eu sobrevivente a mim-mesmo como um fósforo frio... 

 

No tempo em que festejavam o dia dos meus anos ... 
Que meu amor, como uma pessoa, esse tempo! 
Desejo físico da alma de se encontrar ali outra vez, 
Por uma viagem metafísica e carnal, 
Com uma dualidade de eu para mim... 
Comer o passado como pão de fome, sem tempo de manteiga nos dentes! 

 

Vejo tudo outra vez com uma nitidez que me cega para o que há aqui... 
A mesa posta com mais lugares, com melhores desenhos na loiça, com mais copos, 
O aparador com muitas coisas — doces, frutas, o resto na sombra debaixo do alçado, 
As tias velhas, os primos diferentes, e tudo era por minha causa,  
No tempo em que festejavam o dia dos meus anos. . . 
  
Pára, meu coração! 
Não penses!  Deixa o pensar na cabeça!  
Ó meu Deus, meu Deus, meu Deus!   
Hoje já não faço anos. 
Duro. 
Somam-se-me dias. 
Serei velho quando o for. 
Mais nada. 
Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira! ... 

 

O tempo em que festejavam o dia dos meus anos!... 

 

(Álvaro de Campos)

 

 

(Nota minha: ... Ainda festejam, amigo!)

 

publicado por Ana Vidal às 11:17
link do post
13 comentários:
De Rita Ferro a 13 de Junho de 2008 às 12:38
O que levas vestido? Embora levar aqueles vestido que temos iguais? Tu, o amarelo, e eu, o encarnado? Já o experimentaste?
De Ana Vidal a 13 de Junho de 2008 às 13:16
LOL. Seria lindo, as duas manas catatuas...
Já o experimentei, sim. Um arraso! LOL
De miguel l. a 13 de Junho de 2008 às 13:10
Parece que foi assim o homem...mais reflexivo que activo; mais queixoso que positivo.

Além de trabalhar,pouco,de manhã,como um anónimo, escrevia o resto do dia como um adicto.

Nada mais fez além de meter o país e lisboa no mapa e de se nos antecipar, tirando-nos palavras da boca e pensamentos do cérebro.

Nada mais fez,mas prefiro-o aos camionistas arruaceiros e aos outros que hão-de vir.

Foi mesmo assim?
De Ana Vidal a 13 de Junho de 2008 às 13:19
É, fez pouca coisa... como diz o teu 3º parágrafo.
Só te esqueceste do absinto, à noite. E do cigarrinho pré-ASAE.
De Teresa a 13 de Junho de 2008 às 16:21
Olha que isto às vezes chega a ser preocupante!
Não é que escolheste justamente a ilustração que eu já tinha gravado para o post de logo à noite? - estou no Colosso, nós somos Governo, não somos municipais, não há feriado para nós...

Beijinho.
De Ana Vidal a 13 de Junho de 2008 às 16:31
LOL... temos que passar a combinar! Mas põe na mesma, não tenho o exclusivo, ora essa...
Tadinha... a trabalhar? Eu estou em casa (infelizmente, nós cá em casa "não somos Governo"...)

Beijo, pobre "governante" ;)
De mike a 13 de Junho de 2008 às 21:27
Bela homenagem, Ana. :)
De Ana Vidal a 13 de Junho de 2008 às 23:06
Gosto muito deste poema, Mike. E sinto-o como meu:
"No tempo em que festejavam o dia dos meus anos, eu era feliz e ninguém estava morto."
Tão simples, e está tudo dito. Aqui tenho que concordar consigo quando diz que Pessoa às vezes é linear. Mas aí é que está a genialidade, porque não deixa de ser profundíssimo.
De mike a 14 de Junho de 2008 às 00:04
A minha escolha é: Quando vim a ter esperanças, já não sabia ter esperanças. Quando vim a olhar para a vida, perdera o sentido da vida."
De Ana Vidal a 14 de Junho de 2008 às 00:42
Já está ao pé dos outros.
Desta vez escolheu uma parte triste...
De O Réprobo a 13 de Junho de 2008 às 22:31
Qual é o poema preferido pela Ana, dos da pena dele?
O meu é do ortónimo, um que creio sem título, começado por
"Sou o fantasma de um rei..."
Bj.
De Ana Vidal a 13 de Junho de 2008 às 23:18
Tão difícil responder a isso, Paulo! Quase sempre os de Álvaro de Campos, Caeiro logo a seguir e também muitos assinados com o nome verdadeiro. Mas... se tivesse que escolher só um poema? Deixe-me pensar...
Olhe, lembrei-me de um que adoro e fui buscá-lo, porque não o sei todo de cor:

Eros e Psique

Conta a lenda que dormia
Uma Princesa encantada
A quem só despertaria
Um Infante, que viria
De além do muro da estrada.

Ele tinha que, tentado,
Vencer o mal e o bem,
Antes que, já libertado,
Deixasse o caminho errado
Por o que à Princesa vem.

A Princesa Adormecida,
Se espera, dormindo espera,
Sonha em morte a sua vida,
E orna-lhe a fronte esquecida,
Verde, uma grinalda de hera.

Longe o Infante, esforçado,
Sem saber que intuito tem,
Rompe o caminho fadado,
Ele dela é ignorado,
Ela para ele é ninguém.

Mas cada um cumpre o Destino
Ela dormindo encantada,
Ele buscando-a sem tino
Pelo processo divino
Que faz existir a estrada.

E, se bem que seja obscuro
Tudo pela estrada fora,
E falso, ele vem seguro,
E vencendo estrada e muro,
Chega onde em sono ela mora,

E, inda tonto do que houvera,
À cabeça, em maresia,
Ergue a mão, e encontra hera,
E vê que ele mesmo era
A Princesa que dormia.

Fernando Pessoa
De Huckleberry Friend a 16 de Junho de 2008 às 11:50
Ontem à noite, ouvi este poema dito pela Germana Tânger, na RTP2. Momento de rara beleza. Maria Bethânia também o diz, no disco ao vivo Imitação da Vida, cujo alinhamento é marcado por poemas de pessoa. Bela escolha, Ana. Beijos.

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

Rosa dos Ventos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds