Terça-feira, 3 de Junho de 2008

De mão estendida

 

Se o estado da economia de um país se pode aferir pela quantidade de pedintes nas ruas da sua capital, então a nossa está, literalmente, de rastos. As ruas de Lisboa estão pejadas de gente que pede esmola em cada esquina, em cada vão de escada, em cada entrada do metropolitano. O espectáculo é tão aflitivo como inevitável, e embora com as mais diversas origens e razões, todas estas misérias têm um denominador comum:  mais do que uma mão estendida, há um dedo apontado a nós, passantes apressados e tantas vezes indiferentes, por termos criado uma sociedade que não olha pelos seus desvalidos como devia.

 

A necessidade e o desespero podem ser os mesmos, mas os pedintes não são todos iguais. A atitude e a abordagem variam bastante. Há os que exibem as suas desgraças (ou as de outros, geralmente crianças), arregaçando mangas e pernas de calças para mostrar os cotos tristes num desamparo mudo e sem pudor, feito de pura rendição. Há os que nos recitam uma ladainha decorada e já inexpressiva, raramente ouvida mesmo por aqueles que lhes deixam cair uma moeda nas mãos. Há os ciganos, que destaco apenas porque conservam uma natural arrogância no olhar, que apesar de tudo os redime, mesmo quando se desdobram em lamúrias ininteligíveis (é como se nos dissessem: "mesmo que não dês nada, eu não deixo de ser quem sou!"). Há uma infinidade de estrangeiros de todas as proveniências que, não sabendo ainda comunicar em português, nos fazem ler um papel plastificado com uma história de vida arrepiante. Há os que nos impingem um serviço que não pedimos, para justificar a esmola, como um vidro lavado à velocidade da luz enquanto o sinal não muda de vermelho a verde, ou a indicação de um lugar de estacionamento que já tínhamos visto. E há os que mais me enternecem: aqueles que nos oferecem, não alguma coisa de útil ou tangível em troca da moedinha, mas o seu pingo de sonho ou de eternidade, cantado ou tocado num instrumento qualquer, quase sempre mal.

 

Finalmente, há os criativos. Por duas vezes me aconteceu já cruzar-me com esta estirpe especial. A primeira foi no CCB, há uns anos, quando eu tentava estacionar o carro, já em contra-relógio, para ir assistir a um espectáculo (não tenho a certeza, mas acho que era a Flauta Mágica). Um dos "arrumadores" que andam sempre por ali percebeu a minha pressa, correu a cravar-me a moeda da praxe e disse-me, com ar cúmplice, esta frase que nunca mais esqueci:  "Vai gostar. Eu vi em Paris e adorei".

 

Hoje voltei a encontrar um criativo perto do Museu Nacional de Arte Antiga, onde estou a fazer um cursinho de História da Arte e Coleccionismo: um tanto afastado da porta principal para não ser apanhado pelos seguranças do museu, um maltrapilho de porte imperial e sorriso rasgado estendia a mão, pedindo "uma moeda para a cultura" (!!), ao mesmo tempo que entregava um folheto do museu a quem lha dava. Muito gostava de saber como entrou ele lá dentro, para roubar a pilha de folhetos que lhe saía do bolso...

 

publicado por Ana Vidal às 23:05
link do post
22 comentários:
De lord broken pottery a 3 de Junho de 2008 às 23:43
Ana, querida,
A mania por aqui são os malabaristas. Meninos acotovelam-se nos semáforos, lançando limões para o alto. Dois, três, quatro, há quem consiga controlar cinco ao mesmo tempo. Depois curvam-se, e recebem, quando dão, moedas em forma de aplauso.
Grande beijo
De Ana Vidal a 4 de Junho de 2008 às 00:46
Milord,
aqui ainda não chegaram os malabaristas, pelo menos que eu tenha visto... mas devem ser engraçados, fazendo avarias com limões. Os de cá lavam-nos o vidro do carro sem nos dar tempo sequer a dizer que não queremos.

Beijo, bom te ver
De mike a 4 de Junho de 2008 às 00:26
Puro ilusionismo, Ana. Ou contrariamente ao que estamos habituados, creio tratar-se de um caso em que a cultura estendeu a mão a quem precisava...
De Ana Vidal a 4 de Junho de 2008 às 00:48
Não posso deixar de aplaudir a criatividade, usando os recursos que estão mais à mão. E tem razão, Mike, é a cultura ao serviço de alguém que a merece.
De O Réprobo a 4 de Junho de 2008 às 13:19
Querida ana,
por criativos, creio que é imbatível uma minorca romena de não mais de quatro anos que, nos Restauradores, me pediu esmola.
Eu, com vergonha o confesso, à falta de caridade juntei a mentira, dizendo que não tinha. De repente, sinto a mãozita da descarada a puxar-me a manga do casaco: apontava para uma caixa Multibanco, para que eu levantasse dinheiro para lhe dar.
Até na criatividade a Diferença vinga!
Beijinho
De Ana Vidal a 4 de Junho de 2008 às 15:01
Essa miúda vai longe, Paulo, se lhe derem uma oportunidade... espero que a tenha!
Beijinho
De fugidia a 4 de Junho de 2008 às 14:03
Querida Ana,
já aqui vim tantas vezes e... em nenhuma consegui escrever. Tinha tanto para dizer... mas não numa caixinha destas.
Um beijinho.
De Ana Vidal a 4 de Junho de 2008 às 15:06
Beijinho, Fugi.
De psb a 4 de Junho de 2008 às 14:28
Não era o ministro da cultura (nem me lembro do nome dele) disfarçado de pedinte a incentivar a visita ao Museu?

Em definitivo, porque não posso dar a todos, selecciono-os: só dou aos que me dão música. Mexem sempre mais comigo, não sei porquê.
Beijinhos
De Ana Vidal a 4 de Junho de 2008 às 15:44
Também são os que mais me tocam. (sem ironias)
beijo
De psb a 4 de Junho de 2008 às 22:43
... risos ... pelas ironias ...
De Luísa a 4 de Junho de 2008 às 18:24
Minha querida Ana, também me incomoda imenso esse espectáculo. Além do que tem de degradante, faz-me sentir apertada entre a irritação, a desconfiança e o remorso… Evito-o quanto posso. Ressalvo o exemplo, que dá, dos que tocam e cantam. E há ainda umas figuras, que não sei se cabem na classificação de pedinte, que respeito, como uns senhores que vendem flores nos semáforos e outros que distribuem a Cais.
De Luísa a 4 de Junho de 2008 às 18:51
O primeiro dos seus criativos, Ana – o que viu a Flauta Mágica em Paris – poderia ser um caso de fortuna perdida; mais provavelmente de imaginação delirante. Mas trouxe-me à memória o pedinte que costumava estar à porta da capela a que os meus Pais iam assistir à missa, ao Domingo. Não há melhor forma de fidelizar dadores do que cativar lugar à porta de uma igreja. Um dia, correu a informação de que o homenzinho tinha uma excelente conta bancária, que metia num chinelo as contas bancárias de muitos dos que lhe davam esmola. De facto, o seu ar era rosado e próspero por baixo dos andrajos. Apesar de tudo, os dadores mantiveram-se-lhe fiéis. Até ao Domingo em que deixou de aparecer. Talvez tenha ido para Paris, ver a Flauta Mágica e gozar os rendimentos. Espero que sim!… :-)
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2008 às 00:37
Luísa, eu não sei se ele estava a falar verdade mas até podia ser: tinha ar de quem já tinha tido dias melhores, possivelmente antes de se meter nas drogas. Uma tristeza, mas tive que me render à graça com que disse aquilo para me surpreender. Conseguiu...
E quem sabe se não era o tal que pedia à porta da igreja onde iam os seus pais?
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2008 às 00:33
Todos eles são reflexo de uma sociedade doente, que gostaria de ignorá-los mas não pode, porque cada vez são mais... mas há figuras verdadeiramente poéticas e trágicas, que nos obrigam a ver-nos ao espelho. São uma lição, muitas vezes.
Beijinho, Luísa
De jayme a 4 de Junho de 2008 às 23:56
Ana, como escreves bem! O tema poderia perfeita e justificadamente escorregar para a pieguice, mas qual! Está tudo ali na dose certa, sobrando apenas a vontade de voltar sempre aqui. Beijo!
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2008 às 00:28
E por aqui há sempre muito gosto em que voltes, Jayme. A propósito, roubei-te mais um dos teus fantásticos sonetos. Um dia destes faço um post com ele, posso?
Um beijo
De jayme a 5 de Junho de 2008 às 14:36
É claro que sim! Vou gostar muito.
De Hetie a 5 de Junho de 2008 às 17:44
Eu tenho muita pena. Dizem que nao devemos ter pena de ninguem porque "quem tem pena se despena" !!! Mais eu tenho.
Em questao de criatividade, outro dia, disseram que na Saint Judas Church, aqui na Brickell, o padre comentava que a arrecadacao daquele dia, domingo pela manha, era para os pobres...um mendingo que estava na missa foi la no altar e "passou a mao" na parte dele antecipadamente, na frente de todo mundo...disseram que o padre ficou olhando e nao pode dar uma palavra, certo? Nao sei se eh verdade ou nao, ou mesmo se eh piada...lembro que na hora nao ri, mas, agora, pensando bem, piada ou verdade, eh muito boa e original...nao eh? beijinhos....Hetie
De Ana Vidal a 5 de Junho de 2008 às 17:51
Mais um criativo, Hetie! Admiro muito quem conserva o sentido de humor, mesmo em circunstâncias difíceis.
(e não consegui deixar de rir com essa palavra: arrecadação. Aqui significa "despensa", geralmente na cave dos prédios. Por isso não percebi logo...)
De rocha a 6 de Junho de 2008 às 11:48
Eu sou das portuguesas com sorte!! VIVI EM AFRICA!!!!!!!!E curiosamente não me fez confusão saltar de Salvaterra de Magos ( uma vila)para Luanda( uma cidade) e a cor da pele ( eu que sou celta e bisneta de irlandeses) muito menos me fez ..Mas deixo aqui que a primeira manifestação de racismo que tive e que me apercebi com enorme mágoa foi exactamente duma colega de liceu angolana hoje a viver em Portugal e a ocupar um cargo de enorme prestigio ( tenho visto na imprensa) que no dia 27 de Abril de 1974 entrou na sala de aula com um ar sobranceiro e altivo!!!!!!!! Não nos deu os bons dias....aos 17 anos não se entende , aos 50 anos tudo faz sentido
Sarava
Rocha
De Ana Vidal a 19 de Junho de 2008 às 17:39
Olha, só te descobri agora! Puseste o comentário no post errado...
Pois é, o racismo existe nos dois sentidos e muitas vezes esquecemo-nos disso.

Saravá!

Comentar post

brisas, nortadas e furacões, por


Ana Vidal
Pedro Silveira Botelho
Manuel Fragoso de Almeida
Marie Tourvel
Rita Ferro
João Paulo Cardoso
Luísa
João de Bragança

palavras ao vento


portadovento@sapo.pt

aragens


“Não sabendo que era impossível, foi lá e fez."

(Jean Cocteau)

portas da casa


Violinos no Telhado
Pastéis de Nada
As Letras da Sopa
O Eldorado
Nocturno
Delito de Opinião
Adeus, até ao meu regresso

Ventos recentes

Até sempre

Expresso do Oriente (3)

Expresso do Oriente (2)

Expresso do Oriente (1)

Vou ali...

Adivinhe quem foi jantar?

Intervalo

Semibreves

Pocket Classic (A Educaçã...

Coentros e rabanetes

Adivinhe quem vem jantar?

Moleskine

Lapsus Linguae

Semibreves

Sou sincera

Rosa dos Ventos

Livros



Seda e Aço


A Poesia é para comer


Gente do Sul

E tudo o vento levou

Perfil

Technorati Profile

Add to Technorati Favorites

Ventos do mundo

Ventos de Passagem


visitantes online

Subscrever feeds