Quinta-feira, 29 de Maio de 2008

Observatório

 

Objectivos de Vida

 

Uma Vida sem objectivos torna-se oca, como se vazia, despida de interesses que nos movam seja para que sentido for, tornando cada dia igual ao anterior e ao que há-de vir, numa sucessão de ócios de colecção que, mais tarde ou mais cedo, se transformarão em frustrações e, num ápice, conduzirão a inevitáveis depressões.

 

Certo desta vertiginosa cadeia, o nosso grande ‘olheiro’ (porque está sempre a olhar por nós) e estulto responsável por aquela entidade que zela afincadamente pelos nossos interesses, defendendo-os ou, pura e simplesmente, eliminando-os, achou por bem salvaguardar os seus cães de fila, perdão, os seus agentes inspectores, das mais que certas futuras crises depressivas, dotando-os de objectivos, entre receitas provenientes de coimas, ao número de autos levantados, aos encerramentos de unidades em laboração fora das regras, espúrias ou não.

 

Certamente lendo pela mesma cartilha outra entidade de interesses municipais que pretende ordenar o estacionamento na capital, dotou também os seus… agentes (vulgo sapos ou feijões verdes) de objectivos a cumprir, entre receitas provenientes também de coimas, à aplicação de bloqueadores e, quiçá, ao número de carros rebocados em determinado período.

 

 

Esta transparência (apesar da listinha de objectivos da ASAE ter vindo a lume por ‘negligência’ de alguma alma maldosa) configura aquilo de que já todos suspeitávamos: estas entidades têm por objectivo ‘sacar’ massa a supostos incautos e prevaricadores, antes de pensarem em qualquer acção pedagógica que melhore, de facto, quer a vida do consumidor numa multiplicidade de serviços a que está exposto, quer a vida do condutor e do peão lisboeta, melhorando a circulação na cidade.

 

Por objectivos também se regem os bairros de finanças, nos resultados de cobranças que têm de fazer em determinado período. Mas estes fazem-no cirurgicamente, pois sabem de antemão onde e quanto vão cobrar, sem a menor hipótese de flexibilidade, aumentando o seu pecúlio com coimas astronómicas se a dívida não for liquidada no prazo prescrito. Nada contra. Os impostos devem ser pagos (apesar da sua aplicação ser mais do que duvidosa) mas devem-no ser por todos. Não só por aqueles que, tendo pago uma primeira vez, já estão cadastrados como certos para se cumprirem aqueles objectivos.

 

Por objectivos também se deve reger a Galp, naturalmente, e aí percebemos, pois presta serviços e vende produtos. É normal. Só que as suas melhores expectativas devem ter sido largamente ultrapassadas, com o descalabro que para aí vai com o preço de venda dos combustíveis, apesar de se queixar que só teve 109 milhões de euros de lucro no 1º trimestre deste ano…

 

Não me admiro que o lavrador que teve de encostar o seu tractor porque já não tem dinheiro para o combustível e o boi a quem tiraram do sossego pois foi substituir o tractor deste lavrador falido, não percebam porque é que ninguém põe um travão neste mundo louco.

 

 

De que estarão à espera o Sr. Sócrates e o Sr. Pinho, para delinearem objectivos que defendam, de uma vez por todas, o progresso da economia nacional, através da defesa dos seus agentes económicos, protegendo-os tanto de especulações externas como internas e de interesses privados escondidos, intervindo sem esperar, eternamente, que o mercado (esse ser difuso) se auto regule?

 

É provável que o agricultor ainda tenha alguma esperança. Mas o boi, esse já sabe que tem o destino traçado e que vai morrer de esforço antes que o mercado se normalize, tal como muitos dos desfavorecidos a quem estas crises em catadupa retiram qualquer expectativa de uma vida melhor.

 

 

Pedro Silveira Botelho 

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publicado por Ana Vidal às 15:22
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12 comentários:
De João Paulo Cardoso a 29 de Maio de 2008 às 15:59
Texto bem pertinente.

Tem sido complicado lidar com as notícias que nos chegam pela comunicação social, vividas na pele lá fora, na selva.

E agora, quando até o sol nos falha, somos cada vez mais um país deprimido.

Beijos.
De psb a 31 de Maio de 2008 às 09:40
João Paulo
Pois é verdade. Até o sol nos tem falhado. Será que, insondavelmente, até aqui está a mão desastrada dos nossos políticos?
Um abraço
De OnceinaWhile a 29 de Maio de 2008 às 16:14
e .. sem expectativa de uma vida melhor, lá se vai o objectivo e se instala a depressão.

Brilhante análise Caro Pedro, e muito bem explicada a actuação dos "macaquinhos de circo".
De psb a 31 de Maio de 2008 às 09:42
Cara Once
É uma tristeza que estes macaquinhos e, por trás, os macacões, só tenham artes para piorar o estado destas coisas.
Um beijinho
De mariav a 29 de Maio de 2008 às 20:42
O srs. Sócrates e Pinho, como a grande maioria dos nossos políticos no activo, aprenderam umas coisas sobre objectivos... Mas o que nunca aprenderam nem apreenderam foi a sua missão - a missão dos políticos: servir o país, melhorar a qualidade de vida dos cidadãos. E ainda têm a lata de comentar a situação económica actual dizendo, como Pinho disse há dias, "É o diabo!".
De psb a 31 de Maio de 2008 às 09:43
Mariav
Será que ele se referia ao Sócrates, atirando para cima dele todas as culpas?
Um beijinho
De Luísa a 29 de Maio de 2008 às 20:50
Caro Pedro, quando li, há dias, a declaração do PM de que «o Estado não tem recursos para ajudar a classe média», entrei em parafuso. Era bom que o PM soubesse que a classe média – que o sustenta – não quer uma esmola, mas apenas que o Estado, no seu papel regulador e dinamizador da economia, não faça afirmações de impotência e cumpra as suas responsabilidades! E que, se prefere demitir-se delas, se demita também dos seus cargos!!! Pronto, já estou um pouco mais aliviada. :-)
De psb a 31 de Maio de 2008 às 09:48
Luísa
Francamente também me incomodou essa declaração, sabendo, como todos sabemos, que a classe média é quem sustenta este País, no mínimo, porque é dela que o Estado se financia através dos impostos com que a tem sacrificado. Declarar impotência para a ajudar é o mesmo que dizer que o baile vai continuar na mesma e que os sacrificados serão os mesmos.
Um beijinho
De mike a 29 de Maio de 2008 às 23:48
Objectivos também os há ocultos, sinuosos e pouco transparentes. E continuam a ser, desgraçadamente, objectivos, para alguns. Gostei de ler os seus objectivos, caro Pedro. Seus... quer dizer, de alguns.
Um abraço.
De psb a 31 de Maio de 2008 às 09:51
Caro Mike
Ter objectivos é fundamental, como todos sabemos. Mas que sejam transparentes, para todos sabermos com o que contamos e o que de nós se espera.
Atenção que estes não são os meus objectivos...
Um abraço
De Huckleberry Friend a 30 de Maio de 2008 às 14:24
É cada vez mais difícil acreditar no que quer que seja! Por pouco que apeteça virar cínico, a tentação é grande...
De psb a 31 de Maio de 2008 às 09:53
Huck
Cínico, descrente, pessimista, irado, tudo estados de espírito para onde somos empurrados cada vez mais pelo andar desta carruagem.
Um abraço

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