Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

Poemas escolhidos - 1

 

 

Escolha


Entre vento e navalha escolho o vento

entre verde e vermelho aquele azul
que até na morte servirá de espelho
ao vento que por dentro me deslumbra
Entre ventre e cipreste escolho o Sol
Entre as mãos que se dão a que se oculta
Entre o que nunca soube o que já sobra
Entre a relva um milímetro de bruma.

 

(David Mourão-Ferreira)

 

(imagem roubada  à Sofia)

publicado por Ana Vidal às 18:56
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29 comentários:
De O Réprobo a 26 de Maio de 2008 às 21:13
Por que será que contrapomos sempre a cor do Céu e do Mar que o reflecte às da terra que recolhe a morte? Eles não são o seu contrário, mas colegas elementares, como já os Gregos viam. A assimilação do Vento à Eternidade é mais perceptível, pelo receio que nos infundem a paz excessiva , de forma vaga; e a sujeição absoluta, em modalidade mais terrífica.
Beijinho
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 01:08
E não estará a contradizer-se, Paulo, já que diz detestar a ligação do azul (céu-mar) com o castanho (terra)? Eu, pelo contrário, acho que essas cores não só ligam bem como se completam.
De mike a 26 de Maio de 2008 às 23:04
Nunca me achei próximo de poesia. E sempre achei estranho este divórcio prematuro. Num poema detenho-me apenas em pedaços, o que não me parece que faça muito sentido. Como neste, com a frase "Entre o que nunca soube o que já sobra".
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 01:03
Pelo contrário, é sinal de que a poesia o prende de alguma maneira. Apreender e fixar-se num detalhe é já estar envolvido no ambiente poético que rodeia esse detalhe, mesmo que o resto pareça não fazer sentido. A poesia, como a vida, é feita de pedaços, de mil coisas diferentes. E nem todas têm que ter uma leitura imediata, não é?
De Rita Ferro a 27 de Maio de 2008 às 02:36
Ah, Mike: os poetas! Não lhes dê muito crédito! Matam-se em barda!
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 02:58
Ó prosadora cáustica, os poetas matam-se tanto como os pintores ou os músicos, e seríamos bem mais infelizes se todos eles não existíssem!

E não me afugentes o iniciado, que eu estou a tentar converter à poesia quem me quer converter ao futebol...
De Rita Ferro a 27 de Maio de 2008 às 09:31
Não é verdade! Os poetas matam-se mais! Os músicos é mais por over-dose... e os pintores por sub-nutrição... Assim, convictamente, como o Antero ou a Espanca, só entre vocês! Lol
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 10:00
Pelo menos é por uma razão mais elevada... os poetas não se matam por convicção, mas por amor!

(mas não são os únicos. No Ribatejo, por exemplo, a taxa de suicídio é alta. Matam-se pedreiros, canalizadores, electricistas, agricultores... e todos por amor... ao vinho!) lol
De Rita Ferro a 27 de Maio de 2008 às 10:32
Errado: não é por amor, mas por falta dele!
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 10:39
É o mesmo: pelo amor que dão e não recebem ou pelo amor que não conseguem retribuir. Por amor desajustado, enfim.

Mas já chega de tragédia grega...
De mike a 28 de Maio de 2008 às 01:12
Não chega nada. Eu mato pela mousse da Ana e ainda nem a provei, ora...
De Ana Vidal a 28 de Maio de 2008 às 01:19
Assim é que é bonito: merece prová-la em breve, assim com tanta fé!
De OnceinaWhile a 27 de Maio de 2008 às 12:25
.."entre as mãos que se dão a que se oculta .." o procurar significados nos significados que se querem escondidos .. :)
Gostei Muito Ana * Obrigada
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 13:32
Ainda bem que gostou, Miss Once. Tenho um fraquinho por toda a poesia do David.
De psb a 27 de Maio de 2008 às 12:44
Ana
Como já te disse, estou como o Mike para a poesia. Aprecio, de longe, às vezes irrita-me a desconexão, perco a paciência e fico pelo caminho.
Naturalmente que há excepções. Há poemas que, do princípio ao fim, têm uma linha condutora estruturada, com um conteúdo palpável e uma melodia de que gosto.
Como os teus.
Beijinho
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 13:29
Penso que sei porquê: as vossas cabeças estão programadas para a organização, para a coerência e para a rentabilização do tempo, e não para a evasão. Para se apreciar poesia há que abrir espaço à "perda" de tempo em retornos não imediatos e em labirintos de solução improvável, às vezes. A divagação e o sonho não são palpáveis, mas são muitas vezes (ao contrário do que possa parecer) o caminho para a lucidez.
Desculpem se vos pareço pretensiosa neste tema (coisa que detesto ser), não quero dar-vos lições e muito menos falar de cátedra. Eu sei lá como classificar a poesia, só sei senti-la! Estou para aqui a falar de utopias mas a poesia pode ser também muito concreta, e ir directa ao assunto.

Mas quem reconhece a melodia das palavras já está próximo da poesia, irremediavelmente. Tal como quem se prende a pedaços dela, como o Mike.

Um beijo, meu pragmático amigo. E obrigada pelo elogio de distinguires os meus poemas.
De O Réprobo a 27 de Maio de 2008 às 15:19
Querida Ana,
não, mais me ajuda, pois que dá a tal oposição irreconciliável como eminentemente partilhada. Eu procurava as causas que vão além da associação cromática...

Quanto ao diferendo com a Rita, talvez o Povo que integramos tenha intuído tudo, ao dizer que de poeta - como de médico e louco - todos temos um pouco. A base populacional para a matança é pois maior do que no mais rarefeito Estrato dos Prosadores. Atenção, eu não disse dos Prosaicos!

Vai acompanhar a Maratona da Poesia, aí pela terra cantada por Byron?
Beijinho
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 15:30
Eu sei que procurava causas mais transcendentes, Paulo, mas não resisti a meter-me consigo por essa embirração que não partilho.

Não, não vou ter tempo para maratonas de poesia nos próximos dias, por isso não conto ir ao Palácio Valenças.
beijinho
De Luísa a 27 de Maio de 2008 às 16:36
Esteve quase a apanhá-lo na curva, Ana. Mas o Paulo tem uma defesa muito bem organizada. É preocupante! :-D
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 16:46
Tem razão... é preocupante!! Sempre a resposta pronta e bem fundamentada, não se deixa apanhar em curva nenhuma...
:)
De sofia a 27 de Maio de 2008 às 16:08
E eu que tinha feito um comentário sobre os poetas loucos ! Onde terá ido ele parar? Este teu sapo!!!

Lindo o poema, como são os do David! Gosto muito da melodia deste 'entre'!

beijinhos

PS - Diz ao PSB que vá ao meu blogue ver o poema que lá pus, mais trasparente é impossível! (E eu a ver se faço nascer mais uns torguianos por aí!)
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 16:44
O sapo anda a boicotar-te? Ah, eu zango-me com ele!

Sabes a minha posição quanto ao Torga: mais contos que poemas, mas de alguns gosto muitíssimo. Já lá vou espreitar.
Beijocas
De Luísa a 27 de Maio de 2008 às 16:29
Já falámos disto, Ana, e, como sempre, o seu diagnóstico é certeiro. O leitor apressado e o leitor muito racional podem ter dificuldades de relacionamento com a poesia (ou alguma poesia). Eu tenho um pouco de ambos. Mas o meu «fraco» por frases - :-) - leva-me, às vezes, a, partindo do verso, chegar ao poema. Razão por que gosto do que tenho lido (em poesia) do David Mourão-Ferreira.
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 16:43
Pois é, Luísa, já falámos disto. É um tema que não me canso de discutir, porque é apaixonante. Não só a poesia - forma de expressão, como as razões que nos levam até ela ou nos afastam dela.

No meu caso, às vezes basta a música das palavras para ficar presa a um poema. A poesia e a música têm muito em comum, na minha opinião.

De O Réprobo a 27 de Maio de 2008 às 22:24
Ai Minhas Senhoras (Ana e Luísa),
por favor, não deixem que a Comunidade Ucraniana leia os Vossos comentários curvilíneos, ou o "quase" com que me brindam ainda pode ser usado contra este pobre injustiçado...
Beijinhos
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 23:15
Ah, temos então curvas ucranianas na jogada! Muito nos conta, caro Paulo! Desejo-lhe então uma boa gincana...
De O Réprobo a 28 de Maio de 2008 às 00:04
Querida Amiga,
a mesa de jogo a que abanco encontra-se terrivelmente... desertificada. Não era nada disso! Curva, naquele grande País Eslavo, parece querer dizer "profissional do Sexo". Estão a ver os sarilhos em que me metem... quase!
De mike a 28 de Maio de 2008 às 01:16
Caro Réprobo, não se esqueça de fazer pisca antes de das curvas... aí sim, estava metido em sarinhos e não era quase.
De Ana Vidal a 28 de Maio de 2008 às 01:24
LOL!
E "contra-curva", Paulo, o que quer dizer? Senhora bem comportada?

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