Segunda-feira, 26 de Maio de 2008

Um adeus português

 

Alfredo Saramago era um homem muito especial: cultíssimo, dono de um espírito invulgarmente vivo e fino, amante e profundo conhecedor dos prazeres requintados da vida. A sua morte faz-me pensar no muito que tinha ainda por fazer e dizer, e na aparente injustiça que significa este desaparecimento precoce. Claro que esse sentimento nos assalta sempre que perdemos alguém de quem gostamos, mas neste caso as razões são mais abrangentes: além da família e dos amigos, é um país que perde um dos seus valores culturais.

 

A sua prosa era deliciosa e bem reveladora de uma personalidade única. Não resisto a reproduzir aqui parte de um mail que dele recebi, na sequência da combinação de um almoço que tínhamos agendado para falar de livros e de gastronomias. Acho que ele não se importará que eu cometa esta inconfidência:

 

"A poeira ainda anda pelo ar !! Levantou-se antes do Natal e os camelos dos reis magos tornaram-na mais densa...é evidente que tenho estado em Espanha.
Regressado hoje, com horizonte limpo e nítido, dou com o seu mail que me alvoroçou. Não o entusiasmo entendiante das «festas» mas o contentamento de um possivel almoço ao alcance da minha marcação...
Vou estar ausente até domingo e na próxima semana estarei livre à espera que me diga quando e onde.
Parabéns pelo prémio, bom ano e boa vida.
Como se dizia no boémio século XVIII:  «beijo as suas mãos e a fímbria da sua saia, Minha Senhora».
 
Alfredo" 

 

 

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 13:01
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17 comentários:
De Mariana J a 26 de Maio de 2008 às 14:13
Sou honesta. Vim parar ao seu blog via Pronome Possessivo. Um não terá mais importância do que o outro, foi apenas uma prioridade temporal. Parabéns, para já, por aquilo que vejo, confesso que pela primeira vez.

Não conhecia o Alfredo Saramago, a não ser por esta "coisa" que se chama cultura geral. Por aquilo que sabia dele, vou presumir que será fácil (passe, no entanto, o lugar-comum) dizer-se que morreu de papo-cheio. Epicurismo no seu melhor (e no seu pior?).

Deixe-me fazer-lhe uma pergunta provocatória: Se foram os "excessos" que o levaram a esta situação, será que ele tinha esse direito?

Espero não estar a ser indelicada.


De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 14:58
Claro que não está a ser indelicada, Mariana. O Alfredo Saramago não era meu íntimo, de todo. E não sei se tinha esse direito ou não, essa discussão levar-nos-ia longe. Sei que aproveitou bem a vida enquanto a teve, e que talvez tenha pago o preço dessa escolha. Opções...
Seja muito bem-vinda, e volte sempre.
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 15:16
Mariana, pensando melhor e graças ao seu comentário, vou acrescentar uma palavra ao meu texto: "aparente". Obrigada.
De mike a 26 de Maio de 2008 às 14:16
Bonita e sentida homenagem a alguém que eu não conheci, mas para o caso não interessa.
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 14:46
Acho que gostaria de tê-lo conhecido, Mike, como eu também gostaria de tê-lo conhecido mais. Era um homem com imenso interesse.
De Leonor a 26 de Maio de 2008 às 17:25
Além da partida é triste ver que a quase não foi falado na comunicação social :(
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 19:06
Tens razão, e é muito injusto. Não estava ligado ao futebol...
De Luísa a 26 de Maio de 2008 às 18:30
Esse «mail» e as suas palavras, Ana, confirmam a ideia que tinha de Alfredo Saramago: de um culto, expressivo e simpático «bon vivant». Tenho pena. A morte nunca é justa, nem mesmo quando é natural.
De Ana Vidal a 26 de Maio de 2008 às 19:06
Um charme, sim, Luísa.
De Capitão-Mor a 26 de Maio de 2008 às 19:43
Não o conheci pessoalmente mas chegueialêr várias coisas dele. Foi um dos principáis responsáveis pelo meu interesse pela gastronomia portuguesa.
Pelo que escreves suponho que tenha sido um bon-vivant. Partilho da mesma opção de vida, talvez eu parta mais cedo, mas certamente plenamente realizado.
Abraço
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 13:49
E fazes tu muito bem, se é isso que te faz feliz.
Um beijo
De tcl a 26 de Maio de 2008 às 20:39
oh! não sabia! custumava ouvi-lo na Rádio Europa Lisboa, numa rubrica chamada "sem papas na língua", bem interessante, por sinal, como são quase todas as rubricas desta rádio. Que pena...
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 15:09
É tão raro ouvir rádio que nem sabia da existência dessa rubrica dele. Devia ser interessante, sim.
De O Réprobo a 26 de Maio de 2008 às 21:05
Querida Ana,
estou a tomar conhecimento agora. Pouco sei da Pessoa, mas gostava muito de seguir os guias vinícolas Dele.
Beijinho
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 15:10
Como o da fotografia que pus ali em cima. Eram muito úteis e muito bem feitos.
De psb a 27 de Maio de 2008 às 11:56
Ana
Faz-me pena o desaparecimento deste Saramago. Ainda há pouco tempo falámos dele e do estado de saúde crítico em que estava. Era um verdadeiro epicurista que sabia cultivar o lado prazenteiro da Vida, tanto como sabia divulgá-lo e ensiná-lo. Do que li dele, lembro-me de um livro 'delicioso' em que relata conversas com vários amigos seus, sempre à volta da mesa, entrando pela descrição do menu e das sensações que provocava.
Óbviamente que terá sido 'vítima' deste estilo de Vida. São opções legítimas, que partilho, pois, se temos que morrer um dia, que partamos felizes.
Apesar de não ser teu íntimo, sei que ficaste triste, até porque ficaste a meio de uma conversa que não terá fim. O que nos deixa sempre um amargo de boca.
Um beijinho grande.
De Ana Vidal a 27 de Maio de 2008 às 15:18
Fiquei triste, claro. Não só por essa conversa inacabada como por não ter tido oportunidade de conhecê-lo melhor.
beijinho

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