Sexta-feira, 16 de Maio de 2008

Observatório

 

 

O Elixir desta Juventude

 

 

O 1º caderno do Expresso da semana passada trouxe-me de volta aos meus 17 anos e, simultaneamente, à minha realidade presente e bem actual. Por um lado, fez-me recuar àqueles tempos da adolescência inconsciente, irresponsável, ingénua, em que as promessas de um futuro ainda longínquo estavam todas por cumprir. Por outro, fez-me sentir a presença constante da ameaça que, nos dias de hoje, uma inocente saída nocturna de um qualquer jovem daquela idade, pode representar.

 

Naquela época, na idade em que julgamos ser invencíveis e tudo é possível, o sair à noite resumia-se a uma festa em casa de amigos, a um cinema ao tempo daquelas salas monumentais com plateia, 1º e 2º balcão, ou a uma jantarada esporádica, até mesmo uma ou outra cervejinha esparsa.

 

Claro que apanhei os meus pifos. Lembro-me do primeiro a sério, nos Santos Populares em romaria pelas tasquinhas de Alfama, entre copos de tinto carrascão e cálices de bagaço, bebidas a que não estava nada habituado, que me deixaram virado do avesso. O dia seguinte um tormento, com a cabeça a andar à roda e a boca a saber a papel de música, que passou e ao qual sobrevivi.

 

 

Um ano mais tarde, já com carta de condução, recordo algumas aventuras no carro paterno da família, das quais ainda sinto calafrios só de pensar nas consequências que poderiam ter tido. Estou convicto de que todos temos uma luzinha, algures, que toma conta de nós e nos protege nestas circunstâncias, evitando o pior.

 

Mas hoje, a realidade é diferente. As solicitações são inúmeras, a diversidade da oferta mais vasta, a liberdade de movimentos maior e a cabeça dos nossos jovens mais aberta mas mais vulnerável, porque invadida pela facilidade e rapidez da comunicação, da internet aos telemóveis, da programação televisiva negligente à deseducação aprendida em produções com suposto açúcar, ao conhecimento fácil das aberrações dos Fritzl deste mundo, ao despudor de costumes com a consequente amoralização de valores.

 

 

Não sendo novidade, esta notícia vem-nos lembrar mais uma vez que os jovens, apreciados na generalidade, adquirem hábitos de alcoolismo precoce cada vez mais cedo, com bebedeiras catatónicas à base de bebidas fortes e shots rápidos, associadas a consumo de drogas e a experiências sexuais muitas vezes em estado de absoluta inconsciência e sem qualquer tipo de precaução. Curiosamente, traça um paralelo entre o aumento de consumo de álcool e a proibição de fumar em locais públicos, nomeadamente discotecas, e mostra-nos que as raparigas, hoje em dia, lideram em número e em extroversão a animação destas noites longas de uma juventude muito acelerada, para quem umas “bejecas” deixou de ser coisa exclusiva de rapazes.

 

Aos meus 3 rapazes teenagers, tento, na medida do possível, proteger desta selva de perigos reais, incentivando-os, em idade própria, a apreciarem, primeiro comigo, uma cerveja ou qualquer outra coisa, ensinando-os a beber por prazer e a tirar partido de um convívio social saudável. Insisto, quando saem à noite, para estarem atentos aos sinais que os rodeiam, evitando situações anormais que os possam prejudicar, aprendendo a identificá-las e aprendendo que o bem maior a preservar são eles próprios.

 

Porque quero que a luzinha que sempre me protegeu também os proteja a eles, temendo que, por vezes, essa luzinha se possa apagar, distraindo-se com a loucura própria destes tempos e destas idades.

 

Pedro Silveira Botelho

 

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publicado por Ana Vidal às 01:36
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11 comentários:
De OnceinaWhile a 16 de Maio de 2008 às 09:33
"aprendendo que o bem maior a preservar são eles próprios. "

Sempre uma mais valia, Caro Pedro, estes seus textos cheios de preocupação legítima enlaçada na sua própria vivência.
Tendo em casa uma pré adolescente, rapariga, é por aí mesmo que tento e tentarei ir e daí ter "copiado" a que frase que para mim tudo resume: não há bem maior, de facto, e quem pensa o contrário em termos de se "violentar" para ser aceite só tem a perder: Muito para não dizer Tudo.

Bom fim-de-semana e de novo, parabéns pela prosa.
De psb a 16 de Maio de 2008 às 16:24
Cara Once
Com luzinhas e, acima de tudo, uma educação próxima, atenta e valorizada, a 'aventura' de ter Filhos enche-nos a alma. Naturalmente, quando começam a entrar na idade em que ficam expostos ao mundo, cada vez mais duro e muitas vezes tão sujo, a nossa alma fica sempre apreensiva, o telemóvel ligado, a luz da entrada acesa e a porta do quarto entreaberta, à espera que regressem para debaixo da nossa asa.
Obrigado pelas suas palavras.
Um beijinho.
De Nocas Verde a 16 de Maio de 2008 às 11:19
Eu, Verde mãe de 2 Crias, uma delas em pré-crise adolescência, para si, não saberia dizer melhor.
Permita-me discordar de uma coisinha... infelizmente nem todos temos essa luzinha que nos guia. Infelizmente essa luzinha (que também senti e sinto diariamente) faltou a um grande amigo meu numa das nossas incursões fantásticas de juventude. Ainda assim, obrigada por proporcionar sempre leituras assim.
bom dia
De psb a 16 de Maio de 2008 às 16:30
Cara Nocas
Sabe que eu acredito que a luzinha existe sempre. Porém, às vezes apaga-se, sabe-se lá porquê, e ficamos vulneráveis ao destino que Deus nos deu. Também acredito que, por vezes, temos a tendência de nos expormos e desafiarmos demais a nossa sorte. Tenho casos conhecidos próximos em que esta luz se apagou, dando lugar ao vazio de uma enorme tristeza sem cura.
Obrigado pelo seu comentário.
Um beijinho
De sofia a 16 de Maio de 2008 às 12:22
Pedro,
sempre achei que tinha essa luzinha, que ia desde os não-assaltos na rua quando passeávamos às cinco da manhã, quando íamos de carro vá lá saber-se com quem e em que estado, quando a polícia mandava parar todos os carros e me deixava seguir, quando, quando e quando! Foram muitas as vezes em que acreditei ter essa protecção! Em que chegava a casa com um enorme carrossel na cabeça e dormia até à tarde seguinte!

Depois comecei a ganhar juízo (não muito!) e a minha preocupação passou a ser com dois 'anjinhos' lá de casa que saem com os teus teenagers. Também já bebi algumas cervejas com eles! Também espero que a minha luzinha os alumie!

Mas sabes, muitas vezes os comportamentos, o saber impor limites vem do que se aprende em casa (voltamos sempre ao mesmo, não é verdade?). Também os meus pais me ensinaram a beber por prazer e a saber beber. Não foi por isso que deixei de fazer as minhas loucuras e de passar noites a shots, mas acho que havia um limite, que eu e os meus amigos sabíamos sempre, ou quase sempre, qual era.

beijinhos

P.S. - é uma ternura o último parágrafo!
De psb a 16 de Maio de 2008 às 16:45
Sofia
Sabemos, porque, mais maduros (para usar um eufemismo), já passámos por muitas experiências, que a noção do limite, que se ensina e que se aprende com a educação, é um abismo que, tantas vezes, apetece provocar.
Essa noção de loucura que conhecemos porque já caímos nela, faz-nos estar ainda mais alerta com todos os nossos 'anjinhos', mas por maioria de razão, nos tempos que correm, é preciso estarmos atentos e ter a capacidade de antecipar as coisas, mostrando-lhes a realidade desta selva.
Para ti, para os dois, faço votos para que sejam bem sucedidos, daqui a uns anos, nesta cruzada, quando o vosso 'anjinho' entrar nesta fase.
Um beijinho
De Ana Vidal a 16 de Maio de 2008 às 12:43
Bonito e tocante, o teu texto.
Também tentei passar essa mensagem aos meus filhos, Pedro, e até agora essa luzinha tem-nos acompanhado sempre, felizmente. Não porque não façam os seus disparates, claro, mas porque me parece que aprenderam a definir alguns limites para si próprios. Mas nem sempre é assim com todos os jovens, mesmo aqueles a quem os pais passaram a mesmíssima mensagem. Nestas idades achamo-nos sempre invencíveis e capazes de tudo, e achamos que os azares só acontecem aos outros (lembro-me bem de quando me sentia assim, capaz de virar o mundo do avesso!) E nem sempre a luzinha está lá quando é precisa, ou não brilha o suficiente para ser um guia... é assim que acontecem os dramas, muitas vezes.
Acho que temos tido muita sorte também, afinal.
Um beijo
De psb a 16 de Maio de 2008 às 16:35
Aninhas
Assim é. A luzinha, seja anjo da guarda ou sorte ou o que cada um quiser, exige uma premissa: o respeito pelos limites. Ambos sabemos, por muito que os tentemos definir aos nossos Filhos, que são eles próprios que têm de aprender a estabelecê-los, naturalmente, com as armas que lhes formos dando.
Um beijinho
De mike a 16 de Maio de 2008 às 14:37
E estou certo que eles saberão reconhecer, à maneira deles, bem sei (ó se sei), a dimensão do pai que têm. Menos experiente que o Pedro, apenas e por enquanto 1 rapaz teenager, já pouco teenager, mas com ele assim agi. Tal como consigo, no belo texto que connosco partilha, também quero e desejo que a luzinha me continue a proteger como até aqui.
Um abraço.
De psb a 16 de Maio de 2008 às 16:59
Caro Mike
A minha experiência é relativa, porque cada Filho é um Filho, e, em cada nova fase de cada um deles, parece que é tudo novo, novamente. A educação é a mesma, os princípios, os valores, o amor da relação que construímos com eles é igual, mas ('caraças') eles é que são diferentes. O mais velho, quase nos 20, excelente aluno de economia, sempre foi muito responsável e maduro. O do meio, agora com 17, dá-me água pela barba, muito mais 'libertino', menos bom aluno e mais dado a 'experiências'. Tenho que aplicar um esforço diferente para o alertar (até porque me lembra muito o que fui na idade dele). Estou sempre de volta da luzinha dele para que fique bem luminosa. O mais novo, ainda é um 'chavalito ' de 12 anos, ainda por definir, e eu sem saber se pende mais para o irmão mais velho ou para o do meio... Em todo o caso, já vou dando gás na lamparina dele, para que comece a ter o caminho alumiado.
Desejo-lhe toda a sorte com os seus, mais do que a que já têm por tê-lo a si como Pai.
Um abraço.
De mike a 16 de Maio de 2008 às 17:32
Que o assunto é sério, eu sei. Mas que me deu para rir com a sua descrição também é verdade, por me ler nas suas palavras.
Um abraço, Pedro (eu ainda rindo, "caraças").

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