Quinta-feira, 15 de Maio de 2008

Diário do paraíso (4)

 

Último dia no paraíso, e a revelação do meu paradeiro: algures entre Troia e a Comporta (ganhaste tu, Huck, podes reivindicar o almocinho...). As fotografias que tirei (excepto esta, de cima) são todas do lado da foz do Sado, ou seja, são mais de rio que de mar. Por isso a água está sempre tão calminha. Mas bastava-me atravessar a estrada para abrir os braços ao oceano, ao poderoso Atlântico que aqui é azul e frio. Estive quatro dias entre o rio e o mar, entre o azul líquido e o verde da serra da Arrábida, entre os pinheiros e as dunas, entre a civilização (ali mesmo ao lado) e a natureza selvagem de uma ilha deserta, entre uma leve brisa ribeirinha e uma ventania de mar aberto, com cheiro de maresia. Uma delícia. A todos os que me imaginaram em paragens longínquas, digo que temos verdadeiros paraísos aqui mesmo, debaixo do nariz. Troia é um deles, mas não sei por quanto tempo ainda. O princípio da península está transformado num gigantesco estaleiro. Todos os dias o barco que faz a travessia traz nas entranhas hordas de operários das obras, como outrora um cavalo levou, para outra Troia, guerreiros armados até aos dentes. É o mesmo presente envenenado, repete-se a História: não tardará muito e tudo isto estará cheio de condomínios de luxo e de prédios de apartamentos, de supermercados e clubes de video, de cafés e de lojas de chineses. Será então outro género de paraíso, para outro género de gente. Mas não para mim. Tenho a sensação de ter gozado os últimos dias de um paraíso perdido, já com morte anunciada. É, dizem eles, o progresso...

 

 

Tudo o que é bom acaba, e isto era bom de mais para durar muito. Foram quatro dias para reflectir, alinhar ideias, escrever algumas delas e respirar outro ar. Sobretudo isso: mudar de ares, uma coisa de que preciso, de vez em quando, como de pão para a boca. Foi uma experiência única: não me lembro de ter estado tanto tempo a sós comigo, sem qualquer interferência exterior. Não era só a praia que era minha, em exclusivo: a casa, a piscina, o jardim, tudo estava à minha inteira disposição e de mais ninguém, porque não havia mais ninguém (a não ser uma empregada ultra-discreta, que só aparecia quando eu a chamava e que me fazia a cama e algumas refeições, a pedido).

 

 

(A Rum Tale - Procol Harum)

I will buy an island somewere in the sun...

 

She's fuddled my fancy, she's muddled me good
I've taken to drinking, and given up food
I'm buying an island, somewhere in the sun
I'll hide from the natives, live only on rum

I'm selling my memoirs, I'm writing it down
If no one will pay me I'll burn down the town
I'll rent out an aircraft and print on the sky
If God likes my story then maybe he'll buy

I'm buying a ticket for places unknown
It's only a one-way: I'm not coming home
She's swallowed my secret, and taken my name
To follow my footsteps and knobble me lame
 

 (We shall overcome - Bruce Springsteen)

À laia de despedida...

 

We shall overcome, we shall overcome
We shall overcome someday
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

We'll walk hand in hand, we'll walk hand in hand
We'll walk hand in hand someday
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

We shall live in peace, we shall live in peace
We shall live in peace someday
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

We shall brothers be, we shall brothers be
We shall brothers be someday
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

The truth shall make us free, truth shall make us free
The truth shall make us free someday
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

We are not afraid, we are not afraid
We are not afraid today
Oh deep in my heart, I do believe
That we shall overcome someday

 

publicado por Ana Vidal às 23:35
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12 comentários:
De mike a 16 de Maio de 2008 às 00:32
Humprff...
A única notícia boa, se as suas previsões se revelarem acertadas, é o que posso vir a ganhar por ser proprietário de 15.000 ha nesse ainda paraíso, e que me poderão render uma fortuna. Deixará de ser paraíso mas ficarei rico. Ora, Ana, tinha que me vingar de algum jeito. Não gosto de perder... humprff!
De Ana Vidal a 16 de Maio de 2008 às 00:38
E nessa altura já pode comprar também uma ilha, somewere in the sun, e pirar-se para lá...

Quanto a almoços, ainda há um: neste caso oferecido por si, quando perder o duelo!
De mike a 16 de Maio de 2008 às 00:53
Isso... fie-se na virgem... ou na Fugidia. :)
De Ana Vidal a 16 de Maio de 2008 às 01:08
Até ponho as mãos no fogo!
De OnceinaWhile a 16 de Maio de 2008 às 09:07
"tanto tempo a sós comigo .." às vezes precisamos .. eu preciso. :)
Mas .. sem querer ser egoista * é bom sabê-la de volta, principalmente assim: feliz
Beijinho e excelente fim-de-semana *
De Ana Vidal a 16 de Maio de 2008 às 11:51
E é bom estar de volta, Once. Mas eu também preciso desse isolamento, de vez em quando, e além de ter sido produtivo, soube-me muito bem.
Beijinho e bom fim de semana.
De fugidia a 16 de Maio de 2008 às 11:52
E faz muito bem, que eu ando a aguar com a mousse, querida Ana.
Ó Mike, prepare o cartão de crédito, que o almoço tem de ser cinco estrelas: a Ana e eu merecemos muito mais do que um post :-)))

Que bom terem sido umas boas férias de descanso, Ana.
Apetecia-me fazer o mesmo :-)

Beijinho grande.
De Ana Vidal a 16 de Maio de 2008 às 12:05
Fugidia, já temos 2 duelos: um entre si e o Mike, ao volante, e outro entre mim e o Pap'Açorda, na cozinha!!
E vamos ganhar ambos, a brincar... (risos não de nervos, mas de antecipação de vitória)
Beijinhos
De O Réprobo a 16 de Maio de 2008 às 13:13
Ora sebo! Aqui mesmo à mão e não houve meio de Lha deitar! Vale que o abandono desse Paraíso é a restauração do nosso: a companhia da Ana em bases mais regulares.
Beijinho exultante
De Ana Vidal a 16 de Maio de 2008 às 16:37
Bom, caro Réprobo, esta recepção calorosa já valeu o regresso!
Beijinho
De Manecas a 16 de Maio de 2008 às 14:44
Um grande beijo por tudo - a Comporta, os Procol Harum, e especialmente o Boss.

O teu carinho tocou-me. Obrigado

Um beijinho Grande!
De Ana Vidal a 16 de Maio de 2008 às 16:35
Eu é que te agradeço a oferta do Boss para companhia do meu exílio voluntário. Soube-me bem tê-lo a cantar para mim.

Um beijo, amigo.
O teu carinho é que me toca sempre.

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