Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Diário do paraíso (3)

 

Se eu tivesse aqui uma serra eléctrica, juro que me tentava a levar para casa este tronco seco que parece mesmo uma escultura. Ou melhor, que é uma escultura. De uma escultora chamada Natureza. Não muito bem cotada no mercado, por sinal. E é injusto, porque expõe no mundo inteiro. Qualquer um pode aceder às suas obras e é bom que o faça depressa, antes que ela deixe de produzi-las. Está velha e cansada, e tem sido muito mal tratada pela crítica e pelo público. Vai passar-se com ela o que sempre acontece: um dia destes, quando a sua produção começar a rarear, todos vão tecer-lhe elogios e todos vão querer ter uma obra sua, porque nessa altura valerão muito mais. Mas então será tarde: como qualquer artista incompreendido, ela deixar-se-á morrer de desilusão e de frustração. A diferença é que, neste caso, nem o público nem a crítica estarão cá para o reconhecimento póstumo da praxe.

 

 

Hoje a praia era só minha outra vez, mas tive uma visita inesperada: um gato de olhos magnéticos que se aproximou, primeiro a medo e depois já confiante, como se me conhecesse de toda a vida. Deixou-me fazer-lhe festas no pelo sedoso, contou-me a sua história e quis saber a minha. Ouvi-o, ouviu-me, entendemo-nos. Durante um tempo que nos pareceu eterno, a nossa história foi a mesma. Depois partiu, porque não era meu.

 

Também a concha que me deu abrigo não é a minha casa. Eu sei-o bem, como sei também que o sortilégio está a chegar ao fim. Por mim, ficaria por aqui até criar raízes na areia ou até que as algas me enleassem, como se eu fosse uma delas. Mas não posso. Há uma vida que me espera fora do paraíso, num sítio a que chamam “civilização”. Mas só porque não sabem que a civilização é isto.

 

(Wish you were here - Pink Floyd / Pascale Picard)

publicado por Ana Vidal às 22:44
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20 comentários:
De jayme a 14 de Maio de 2008 às 23:46
Curiosíssimo pra saber onde fica esse paraíso!
De Ana Vidal a 15 de Maio de 2008 às 00:13
Aceitam-se palpites, Jayme, mas se você ganhar, o almoço vai ser complicado... talvez a meio caminho, em pleno atlântico, que tal?

Já tenho saudades dos seus sonetos, tenho que ir visitá-lo em breve.
De mike a 15 de Maio de 2008 às 00:25
Já não tenho tanta certeza se a queremos de volta, Ana. E a Ana tem? :)
E depois quem nos presenteia com tão belas crónicas do paraíso? Ou deverei dizer, das Caraíbas? Ah, e a Natureza é mais forte que isso... ou pelo menos que o público e a crítica. ;) Ah 2, não acredite em tudo o que vê e lhe parece. Essa escultura foi posta aí para os turistas terem essa sensação que teve. Pela parte que nos toca, ainda bem, que gostamos de ler o que escreve.
De Ana Vidal a 15 de Maio de 2008 às 01:12
Caraíbas? Ainda não vi os piratas, Mike. Talvez amanhã apareçam, quem sabe?
De CNS a 15 de Maio de 2008 às 10:45
E não sabem mesmo. Mas sabem que a haver paraíso será algo assim. Penso que gostamos de mesmo de "castigo"...


Boas férias
De Ana Vidal a 15 de Maio de 2008 às 11:13
Ou talvez precisemos do "castigo" para depois podermos apreciar devidamente os paraísos...

Obrigada, CNS, mas isto não foi bem umas férias. E está a acabar, infelizmente. Desta vez, foi só mesmo um cheirinho de paraíso.
De Sofia a 15 de Maio de 2008 às 11:52
Estou a começar a ficar MUITO intrigada com o sítio onde estás! E olha que eu não me posso dar a exageros de curiosidades, no meu estado de graça, não convém! Não é verdade?

Volta depressa para eu ir a Sintra comer travesseiros! LOL Morro de saudades deles... e algumas de ti, claro!

beijinhos
De Ana Vidal a 15 de Maio de 2008 às 12:18
Mas podes continuar a dar palpites, miúda. Aliás o outro não valeu, já que foste a reboque do Pedro...
Também já morro de saudades de travesseiros. E uma ou duas de ti, claro...
De O Réprobo a 15 de Maio de 2008 às 14:40
Mas está a Ana a ver, se corta a escultura e a traz para casa, subverte a concepção do/a Artista... trata-se de uma instalação, ora!
Beijinho
De Ana Vidal a 15 de Maio de 2008 às 20:46
Lá isso é verdade. Mas não se preocupe, Paulo, que eu não trouxe uma serra eléctrica para o paraíso...
De jayme a 15 de Maio de 2008 às 15:29
Oba, vou colocar em ação meu lado sherlock. Jantaremos em Cabo Verde!
De Ana Vidal a 15 de Maio de 2008 às 20:45
Jayme, parece-me uma excelente ideia!
De Perspicaz a 15 de Maio de 2008 às 18:16
Ainda está de pé o almoço para quem adivinhar onde fica o "leste do paraíso"? Posso candidatar-me? Para não dar totalmente o ouro ao bandido, aposto numa albergaria... Quando quiser posso revelar o resto.
De Ana Vidal a 15 de Maio de 2008 às 20:44
O concurso ainda está de pé, mas a regra nº 1 é identificar-se, Perspicaz!
De Perspicaz a 15 de Maio de 2008 às 22:01
Podia dizer-lhe que o meu apelido é Perspicaz, tão estranho como outros que existem - Consciência, Paupério, Mil-homens. Por outro lado, e que tal entusiasmar-se com a quebra da regra nº 1? Boa regra é a que se infringe.
De Ana Vidal a 16 de Maio de 2008 às 11:57
Caro Manuel (ou Maria) Perspicaz, ninguém gosta mais de infringir regras do que eu. Mas não esta, por razões óbvias. Nem que fosse por mail (se quisesse mesmo manter o anonimato aqui no blog) devia ter-se identificado.
Além disso, lamento dizer-lhe, mas... já entregou o ouro ao bandido, se é que o tinha consigo! Com tantos mistérios, não deu o seu palpite explícito e agora já revelei o meu paradeiro. Paciência, fica para a próxima.
De Cristina Ribeiro a 15 de Maio de 2008 às 19:56
Se o gato aparecer de novo, é porque foi cativado e a Ana torna-se responsável por ele (raposa dixit); portanto esqueça a escultura e traga o bichano, que até é bom ouvinte e tudo :)
Beijinho
De Ana Vidal a 15 de Maio de 2008 às 20:44
Cristina, o gato é um fugitivo... cativou-me e eu cativei-o, mas depois desapareceu. Eu até nem me importava de trazê-lo para casa, mas não me parece que ele vá nisso.
A escultura, pelo menos, é mais dócil... e é melhor ouvinte ainda!
De tcl a 16 de Maio de 2008 às 15:24
Gostei muito desta ideia da Natureza artista. Tens toda a razão, mas concordo com o réprobo. Não se deve levar uma instalação da Natureza para casa!
De Ana Vidal a 16 de Maio de 2008 às 16:42
Mas podem ficar descansados, porque não havia serra eléctrica para satisfazer os meus instintos selváticos. Se tivesse tido uma à mão, não sei...

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