Terça-feira, 13 de Maio de 2008

Diário do paraíso (2)

 

Esta manhã a praia não era só minha. Um pescador solitário chegou, pousou a trouxa, sorriu-me com ar cúmplice e disse-me qualquer coisa que me pareceu um bom-dia. Depois armou duas longas canas, que espetou à beira de água, e ficou imóvel, de pé, olhos pregados no horizonte. Os pescadores são filósofos, precisam de espaço e de silêncio. Era exactamente o que eu queria também, e por isso me afastei passado algum tempo. Não trocámos mais palavras, mas houve qualquer coisa que gerou um entendimento mútuo imediato. Os muitos quilómetros de praia ensolarada albergaram, hoje, duas solidões voluntárias e felizes.

 

 

Trouxe livros, muitos livros. Mais exactamente, cinco (!) livros. Não porque vá lê-los todos, mas porque não sei quando um deles me apetece e gosto de ir lendo vários ao mesmo tempo. Hoje levei para a praia O sol dos Scorta (Laurent Gaudé). Foi prémio Goncourt em 2004 e estou a lê-lo por recomendação de um amigo. O primeiro capítulo deixou-me logo rendida, a escrita é arrebatadora:

 

"O calor do sol parecia fender a terra. Nem um sopro de vento fazia estremecer as oliveiras. Tudo permanecia imóvel. O perfume das colinas esvanecera-se. A rocha gemia de calor.  O mês de Agosto imperava no maciço de Gargano com a segurança de um senhor. Era impossível acreditar que, nestas terras, algum dia pudesse ter chovido."

 

Trouxe também, para acabá-lo, A mulher certa (Sandor Marai), que já me tinha conquistado antes com o maravilhoso As velas ardem até ao fim. Depois de um diálogo vertiginoso, este implacável monólogo, igualmente primoroso:

 

"Dizes que não é necessário, nem possível, «compreender» como se ama? Enganas-te, minha cara. Eu também julgava isso e, durante muito tempo, gritei-o, a modo de acusação contra o céu. O amor existe ou não existe. Que mais há para «compreender» aí?"

 

Ainda um livro de poesia: a Antologia pessoal de Astrid Cabral, acabadinho de sair no Brasil, que a autora me enviou pelo correio com uma dedicatória que me comoveu. Astrid é, além de uma grande e respeitada Poeta, uma querida amiga, e deu-me a honra de aceitar prefaciar a edição brasileira da minha antologia gastronómica "A Poesia é para comer":

 

"Conhecer-se

 

A gente se despe em frente

a espelhos e ousa enfrentar-se.

Porém não há mesmo como

ver-se, blindada a alma

e as costas inalcançáveis.

Somos opacos, translúcidos

apenas a radiografias.

Contudo resta a ânsia

de bem nítido nos vermos

na dimensão do real.

Mas, por mais que nos olhemos,

o eclipse é sempre total."

 

Igualmente recebido pelo correio, de uma amiga brasileira que assina dois blogs de que sou visita regular - Adelaide Amorim - o livro Como se livrar de Glória. Estou a descobri-lo ainda, com um imenso prazer:

 

"Ambos sabiam o que se desejavam dizer. Sabiam também que tipo de informação e consolo poderiam trocar, mas não valia a pena acelerar as palavras e as intenções, que iriam chegando naturalmente, sem quebrar o clima de acolhimento mútuo."

 

Finalmente, um livro que trouxe por razões de trabalho: O meu país inventado, de Isabel Allende. Preciso de ler sobre o Chile e aceito sugestões de quem souber de outras fontes de informação interessantes.

 

"Nos bairros de lata havia consciência de classe, orgulho de pertencer ao proletariado, o que foi para mim surpreendente numa sociedade tão arrivista como a chilena. Descobri então que o arrivismo era próprio da classe média; os pobres estavam demasiado ocupados na difícil arte da sobrevivência."

 

Como se pode ver por todas estas companhias, a minha solidão é muito relativa...

 

E pronto. Para hoje, uma das canções de Elton John de que mais gosto. E que vem muito a propósito, nestes lazy days de pensar, ler e escrever: Writing.

 

 

Is there anything left
Maybe steak and eggs
Waking up to washing up
Making up your bed
Lazy days my razor blade
Could use a better edge

It's enough to make you laugh
Relax in a nice cool bath
Inspiration for navigation
Of our new found craft
I know you and you know me
It's always half and half

And we were oh oh, so you know
Not the kind to dawdle
Will the things we wrote today
Sound as good tomorrow
Will we still be writing
In approaching years
Stifling yawns on Sundays
As the weekends disappear

We could stretch our legs if we'd half a mind
But don't disturb us if you hear us trying
To instigate the structure of another line or two
Cause writing's lighting up
And I like life enough to see it through

 

(Nota: Porque sou muito indisciplinada, impus algumas regras a mim própria. Uma delas é só vir aos blogs à noite, e por pouco tempo. Por isso não farei muitas visitas nestes dias, mas é claro que gosto muito de saber que vêm visitar-me aqui e prometo ir respondendo às vossas mensagens.)

 

publicado por Ana Vidal às 21:10
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12 comentários:
De O Réprobo a 13 de Maio de 2008 às 22:34
Querida Ana,
já estou cheio de saudades.
«As velas...» do Marai foi um dos livros mais importantes que li nos últimos anos; fico pois curioso quanto à Mulher Certa. Prometo, quanto ao título, não fazer analogias piadísticas com a vetusta gracinha do literato que pediu numa biblioteca »A Felicidade no Casamento» e obteve da bibliotecária a resposta. "É ficção?". Até porque há sempre a considerar a hipótese de ser A Mulher Que se Levou à Certa, apesar de tudo menos opressivo do que «A Mulher Que se Tem Como Certa». Não ligue, eu sem Si, blogosfericamente, fico ainda mais disparatador.
Bjinho
De Ana Vidal a 13 de Maio de 2008 às 23:14
Boas divagações à volta de um título, Paulo! O livro é óptimo, a propósito. E a anedota da bibliotecária também.
Não sei se existem "mulheres certas" ou "homens certos" no sentido de uma relação eterna, uma vez que vamos mudando ao longo da vida. Enfim, existem os que queremos ter, certos ou não...
Bjs
De Cristina Ribeiro a 13 de Maio de 2008 às 22:40
Só nestas alturas gosto da praia; sem confusões nem calor insuportável, por isso imagino este Paraíso da Ana mesmo paradisíaco :)
Como dizia Carlos Pinto Coelho: "faça o favor de ser feliz" !

Já leu «Patagónia», de Bruce Chatwin? A leitura desse livro fez-me sonhar ir um dia ao Chile...
Beijinho
De Ana Vidal a 13 de Maio de 2008 às 23:09
Não li, Cristina. Obrigada pela sugestão, vou comprar. Sonho com uma viagem à Patagónia há muito tempo, mesmo sem ter lido o livro!
Um beijinho
De mike a 13 de Maio de 2008 às 23:49
E impôs muito boas regras. :)
Livros e canas de pesca ligam bem sabia? E não acredite em tudo o que o pescador lhe disser, que essa gente não é de fiar. ;)
Que mais há para compreender aqui? Que a Ana está feliz e isso basta-nos (acho que posso falar na primeira pessoa do plural).
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2008 às 00:30
Pois pode, Mike. Fica-lhe muito bem o plural majestático...
Os pescadores não são de fiar... e os caçadores, são?
;)
De psb a 14 de Maio de 2008 às 00:13
Ana
Se calhar devias ter metido conversa com o pescador. Ainda te saía na rifa um peixinho fresco para o almoço, a juntar a toda essa companhia literária que levaste contigo.
Faço votos para que o tempo melhore.
Beijos
De Ana Vidal a 14 de Maio de 2008 às 00:35
Não me importo nada que não esteja muito calor, até prefiro. Hoje estive ao sol (entre nuvens) um bom bocado, e soube-me muito bem. À hora que saí da praia, o pescador ainda não tinha pescado nada, coitado. Acho que este era mais filósofo...
O peixinho ao almoço, talvez amanhã.
Beijo
De Huckleberry Friend a 14 de Maio de 2008 às 12:58
Ana, da linda música só ouço um excerto de 30 segundos... se o problema não for só meu, talvez a solução seja recorrer ao Audacity (já sei que estás mestra), gravar a música toda no teu pc e voltar a carregá-la no imeem no teu perfil, metendo depois esse código no blogue. Bom descanso e bom writing!
De Ana Vidal a 15 de Maio de 2008 às 01:49
Ainda ninguém se queixou, mas se calhar não és o único. É estranho, porque fiz um upload do meu iTunes... e enganas-te: ainda não atinei com o Audacity. Tens que me explicar melhor aquilo, já me esqueci de como se faz.
De sofia a 14 de Maio de 2008 às 15:00
Também ando a ler a 'Mulher Certa', mas com o meu grau de preguicite aguda nos últimos tempos, parece que vai durar. Ela também tem andado a passear de lá para cá, mas não avança muito! Estou a adorar! Belíssima história, mas ainda vou na primeira!

beijinhos e aproveita
(estou com um bocadinho de inveja!)
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Também ando a ler a 'Mulher Certa', mas com o meu grau de preguicite aguda nos últimos tempos, parece que vai durar. Ela também tem andado a passear de lá para cá, mas não avança muito! Estou a adorar! Belíssima história, mas ainda vou na primeira! <BR><BR>beijinhos e aproveita <BR>(estou com um bocadinho de inveja!) <BR><BR class=incorrect name="incorrect" <a>p.s.</A> Acertaste no verso do Guerra, mas é mais uma encomenda do que uma carta! ;)
De Ana Vidal a 15 de Maio de 2008 às 01:46
Fico curiosa, miúda.
Beijinhos

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