Domingo, 11 de Maio de 2008

Ouro Musical

 

«A pianista Maria João Pires foi esta sexta-feira agraciada pelo governo espanhol com a Medalha de Ouro de Belas Artes 2007, pelos seus serviços em prol do «fomento e difusão da arte, da cultura e do património artístico», informa a Lusa. «A decisão foi tomada no Conselho de Ministros com base numa proposta do ministro da Cultura, César Antonio Molina. Maria João Pires faz parte de um elenco de personalidades do mundo da arte e da cultura, reconhecidos com os galardões, que se destacaram no campo da criação artística e cultural. Entre os galardoados contam-se ainda o português Manoel de Oliveira, o maestro Daniel Barenboim, a cantora de ópera Cecilia Bartoli, o actor Antonio Banderas, o escritor Jorge Semprún, a restauradora Carme Ruscalleda e a artista de circo Paulina Andreu.»

 

Gostei de saber deste prémio. Gostei muito, mesmo. A nossa virtuosa pianista anda muito desaparecida do panorama artístico nacional, infelizmente, após o colapso financeiro de um projecto que era a "menina dos seus olhos": Belgais.

 

Não sei o que aconteceu para que Belgais se afundasse, não me interessam muito as causas. Sejam elas quais forem, lamento profundamente que tenha acabado. Belgais era um projecto pioneiro e quase utópico (digo "quase" porque chegou a realizar-se e a funcionar plenamente, e digo "utópico" porque estava condenado desde o início, tal era a sua ousadia), de um alcance social e cultural invulgar, sobretudo aqui em Portugal.  Eu tive a felicidade de ter estado lá, de ter conhecido aquele mundo encantado por dentro, em todo o seu esplendor. Passei lá um dia inteiro e assisti, deliciada, à rotina de uma verdadeira maravilha.

 

Para quem eventualmente não saiba, Belgais era uma escola de música para crianças desfavorecidas, vindas da paupérrima região serrana que rodeia a cidade de Castelo Branco. E era, também, ponto de encontro e abrigo temporário de músicos, nacionais e estrangeiros, de altíssimo nível (alguns tornavam-se residentes, como professores). Esses músicos, convidados por Maria João Pires, "batiam" a região em busca de aptidões musicais em estado puro, entre as crianças em idade pré-escolar da zona, que não teriam, de outro modo, acesso às mínimas condições que lhes permitissem instruir-se, descobrir e explorar os seus talentos. A escola comprometia-se a alimentá-las durante o dia, a dar-lhes a escolaridade normal, e ainda a proporcionar-lhes uma edução musical de primeira água. Eu assisti a uma dessas aulas, absolutamente fascinante: cerca de 30 crianças de idades várias cantavam em coro afinadíssimo e experimentavam instrumentos, luxuosamente acompanhadas por uma das pianistas mais aclamadas do mundo. Maria João Pires transfigurava-se, literalmente, e via-se que adorava aquela experiência. Semanalmente, havia um concerto (gratuito, claro) para a população da região, em que se incluiam as famílias daquelas crianças privilegiadas. Enfim, um sonho musical sofisticado e gratificante, impensável naquela região extremamente carenciada que aspirava, quando muito, à satisfação das necessidades mais básicas.

 

Esse dia inesquecível incluiu ainda um memorável almoço com os residentes de Belgais e alguns amigos vindos de fora como eu, e todos nos deliciámos com a forma apaixonada como Maria João falava do seu projecto. A quinta era muito bonita e auto-suficiente em alguns aspectos, porque tinha hortas de agricultura biológica, pomares e alguns animais. Foi uma pena a longa agonia de Belgais, a sua morte anunciada e, finalmente, o fechar de portas.

 

Resta-nos a consolação de ouvir Maria João Pires nas gravações que vai editando, e também nos raros concertos que vão fazendo parte do calendário cultural português.

 

Muitos parabéns, Maria João. Este prémio (mais um) é merecidíssimo.

 

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publicado por Ana Vidal às 12:23
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11 comentários:
De O Réprobo a 11 de Maio de 2008 às 14:00
Tenho por norma não comentar prémios, mas posso dizer algo sobre o resto. Gosto do Chopin de MJP, embora não seja tão admirador do seu supra-aclamado Mozart. Dito o que, gostaria de, uma vez mais, me extasiar pelo que a didáctica da Música pode fazer pela dimensão moral das pessoas. É quase magia o que nos relatam dos resultados de algumas docências de alto nível, como as celebérrimas de Lipatti em estado terminal.
E, neste nível mais embrionário, seja-me permitido um paralelo com o Judeu de origem portuguesa Jacob Rodrigues Pereira, na dedicação paroxística que alimentou ao projecto de propiciar outros sons a outros desfavorecidos - oralizar os surdos.
Beijinho, Querida Ana
De Ana Vidal a 11 de Maio de 2008 às 16:05
Um comentário bem ao seu estilo, caro Paulo: erudito e bem defendido, como sempre. As imensas vantagens da música na estruturação do pensamento e na formação do equilíbrio de um ser humano estão mais do que provadas, é bem verdade. Mais ainda quando se trata de crianças sem recursos. Por isso me faz pena quando um projecto destes é abandonado, seja por que razões for.
beijinhos
De João Paulo Cardoso a 11 de Maio de 2008 às 14:47
Mais um prémio merecido e muito menos publicitado do que o Ferrari oferecido a Mourinho por este ter estado um ano inteiro sem fazer nada...

Tenho um cacto na varanda que deve estar quase a receber um Bentley.

Beijos.
De Ana Vidal a 11 de Maio de 2008 às 18:25
Apresenta-me ao teu cacto um dia destes, JP. Não ligo nenhuma a carros, mas gosto de Bentleys (quem não gosta?). Mania das grandezas, o que é que queres...
De Anónimo a 11 de Maio de 2008 às 17:44
Parabéns , mais uma vez pelo teu texto, Aninhas.
Queria somente sublinhar a inebriante utopia do projecto da Maria João Pires em Belgais .
Partindo da vocação artística que cada ser humano tem em estado puro, descobrindo-a, e entendendo o ensino como o amparo dessa vocação na construção da totalidade da pessoa.
Este projecto apoiado multidisciplinarmente, por professores, psicólogos, músicos, etc. , e ainda por cima, sediado numa região pobre e desprotegida, era na verdade uma utopia...Mas tinha a beleza duma utopia extremamente melodiosa e bela.
Um beijinho para ti...
De Ana Vidal a 11 de Maio de 2008 às 18:23
E outro para ti, Manecas. Foste tu quem me avisou deste prémio, e sei como gostas da Maria João Pires. E eu também.
De Manecas a 11 de Maio de 2008 às 17:47
O anónimo anterior sou eu.
MANECAS
De RAA a 11 de Maio de 2008 às 22:51
O país é demasiado pequenino para esta e outras Marias Joões. Sempre foi assim.
De Ana Vidal a 11 de Maio de 2008 às 22:58
E é pena, vizinho! Deitamos sempre fora o que temos de melhor...
De psb a 12 de Maio de 2008 às 00:42
Que mesquinhices terão contribuído para o colapso deste projecto grandioso? Não era politicamente correcto? Não estava na esfera de influência de nenhum lobie ? Não rendia votos? Claro que não cumpria nenhuma destas premissas, se não teria sido acarinhado de outra forma. E contribuir para a formação do futuro deste País não era assim tão importante. Uma pena.
Mas, esclarece-me Ana, Belgais não ressuscitou? Tenho uma vaga ideia de ter lido isso algures, já há uns meses.
Beijinhos
De Ana Vidal a 12 de Maio de 2008 às 01:00
Pedro, tens razão e eu estava desactualizada, pelos vistos. Tentei informar-me e Belgais renasceu das cinzas, ao que parece. Ainda bem. Mas sem a presença da Maria João Pires nunca mais será a mesma coisa, acho eu.
Obrigada pela reposição da verdade.
Beijos

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