Quinta-feira, 8 de Maio de 2008

Observatório


Acabou-se o Arroz Doce

 

Desta vez não foi por causa da ASAE, ao que parece, mas pela especulação, pura e simples, que grassa por esse mundo fora: está instalada a crise no mercado dos cereais, que afecta as bocas e bolsas de todo o mundo e que, por cá, vai, irremediavelmente, pôr em causa a continuidade do arroz de cabidela, de marisco, de sarrabulho, enfim, uma infinidade dos petiscos da boa gastronomia lusitana.

 

Claro que são problemas menores, comparados com as dificuldades sérias que trazem ao quotidiano dos mais desfavorecidos. Esta crise, de contornos pouco claros, mas de clara origem nos mercados financeiros internacionais que, a braços com a recente catástrofe no mercado imobiliário americano - a somar às pressões especulativas dos países produtores de petróleo, que tudo comanda e que tudo influencia, a somar ainda à desvalorização da antiga moeda forte - obriga os investidores, que se estão nas tintas para as consequências das suas manobras maquiavélicas, a procurarem alternativas para engordarem as suas já colossais fortunas.

 

 

Esta realidade contrasta com a brutalidade das estatísticas que nos revelam a outra face desta moeda: no tempo que demora a ler estas linhas, dos 815 milhões de vítimas crónicas de subnutrição em todo o mundo, morreram de fome cerca de cem pessoas, uma por cada 3,5 segundos que passa.

 

Por outro lado, a convicção de que os chamados países ricos e desenvolvidos, assobiam para o lado em todo este pântano de miséria: bastaria que deixassem de alimentar os seus animais domésticos à base de cereais e soja para erradicarem a fome no mundo. Para não falar no consumismo desenfreado, no desperdício e no esbanjamento de recursos, que, se parcialmente afectados a esta causa humanitária, a resolveriam em definitivo.

 

Por cá, aumentam também as dificuldades dos que vivem nos limiares da pobreza (coluna que engrossa a cada dia que passa), com bens essenciais a sofrerem os aumentos inevitáveis, consequentes desta longínqua conjuntura internacional, que lhes escapa e que não percebem como lhes vai ao bolso, em cada papo-seco que compram na padaria.

 

Naturalmente, com responsabilidades das classes dirigentes que nos têm (des)governado nestes últimos anos, fruto das políticas europeias a que estarão obrigados mas sem darem grande luta na defesa de interesses nacionais, permitindo que a nossa agricultura esteja desfalcada e cada vez mais dependente do exterior. Tem-se pago aos agricultores para não produzirem, hipotecam-se parcelas de terrenos aráveis ao pousio e lá ficamos nas mãos dos que souberam negociar a sua preponderância na agricultura europeia (italianos e espanhóis) e das crises internacionais em que não somos intervenientes.


 

Os nossos agricultores reclamam que lhes dêem as condições para poderem produzir. Iguais aos da agricultura subsidiada de outros países, para poderem competir em preço, liberalizando as quotas de produção, para poderem rentabilizar os seus investimentos em maiores quantidades produzidas, desafectando terrenos em pousio e tornando-os produtivos.

 

No entanto, todas estas medidas, a serem postas em prática, já não nos vão safar de apertos nos próximos tempos, pois que terão efeitos lá para o médio prazo. Portanto, adeus arroz doce, que nem a aletria te vai poder substituir, afectada também pela crise nas massas, das alimentícias. Que, nas outras, já estamos nós há muito habituados...


Pedro Silveira Botelho


publicado por Ana Vidal às 10:27
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6 comentários:
De OnceinaWhile a 8 de Maio de 2008 às 11:00
mais uma fantástica análise Caro Pedro, em tudo certa e sem o alarmismo que leio por essa blogo fora.
Como me dizia há dias um amigo, está na hora de começarmos a forrar a despensa, na verdadeira acepção do acto.

Quanto à solidariedade, infelizmente não me parece que se consiga a nível mundial. Acredito sim que se todos fizerem um pouco esse pouco será a diferença entre pouco e nada.
Quando penso neste assunto, acho sempre na minha "crendice" que seria algo muito fácil de resolver. A começar por ensinar a todos os que podem o significado da palavra Humanidade. Mas aqui, normalmente, acusam-me de utópica.

Parabéns pelo seu texto.
De psb a 8 de Maio de 2008 às 19:44
Cara Once
Obrigado pelas suas palavras.
Sabe que fui educado a respeitar o que me era posto no prato, o que procurei fazer com os meus Filhos, não deixando de lhes dizer, com frequência, que o desperdício, por pequeno que fosse, era um crime quando éramos confrontados com pessoas a morrerem de fome todos os dias.
Este ensinamento, que espero lhes sirva para a Vida como a mim me tem servido, contribui para estarmos atentos às dificuldades, tantas, que por aí existem, despertando em nós a solidariedade, mesmo que pontual, com os mais desfavorecidos.
Tudo isto para lhe dizer que utopia é quando as pessoas pensam que o seu pequeno gesto, por pequeno que seja, não resolve os problemas que há no mundo, esquecendo que estes são minorados, em boa parte, pelo somatório de milhões dos pequenos gestos de cada um.
Um abraço
De Mike a 8 de Maio de 2008 às 20:13
Caro Pedro, devo confessar-lhe que a minha primeira reacção ao título foi "olha, azar para quem gosta, que para mim é o único arroz que não como nem obrigado". E aqui, desde já, lhe tiro o chapéu, meu caro. É que esta questão dos cereais, tal como diz a Once, é debatida e re-debatida (acho que esta palavra não existe) e já nos passa ao lado, que outras preocupações, como bem diz, nos atormentam. À laia de publicitário, dir-lhe-ia, que é um excelente título, para um texto ainda melhor. Parabéns.
De psb a 9 de Maio de 2008 às 00:42
Obrigado, Mike.
Um abraço
De Huckleberry Friend a 9 de Maio de 2008 às 13:53
Ai, Pedro, que eu morro de desgosto... arroz-doce é uma das minhas sobremesas preferidas, adoro cabidela, arroz de pato, risottos, e iniciei-me há pouco no arroz de lampreia. Deve ser da costela indiana.

Fora de brincadeira, esta crise assusta pelo que tem de inédito. Ironia do destino - talvez falte este dado na entrada -, outra das causas da mesma é a entrada em cena dos biocombustíveis. Os preços são puxados para cima pela procura acrescida de cereais, para produzir "gasolinas verdes", e de terrenos suplementares para os cultivar. Somemos à lei da oferta e da procura as oportunidades de jogar e especular que a situação proporciona, e temos que para salvar a Terra condenamos à morte quem a habita. Triste sina!

Um abraço, Pedro. Talvez nos vejamos por terras balealenses, onde estarei no fim-de-semana!
De psb a 10 de Maio de 2008 às 03:45
Caro Pedro
Não quis (nem saberei) ser exaustivo nas causas. Ainda há a acrescentar , também e por exemplo, as alterações dos hábitos alimentares de chineses (mais) e indianos, que, por serem 'tão poucos', desequilibram também este xadrez.
'Estamos feitos' é o que é...
Um abraço e bom fim de semana balealense (já tenho saudades).

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