Segunda-feira, 5 de Maio de 2008

Horror



Já comecei - e abandonei - vários posts sobre a notícia de Elizabeth Fritzl e a sua horripilante história de vida. Este assunto tem-me arrepiado de tal maneira que ainda não consegui escrever nada sobre ele. Preciso de digerir primeiro todo o horror, toda a repulsa, toda a alienação que envolve esta monstruosidade, para depois ser capaz de reflectir sobre ela. Até lá, faço minhas as palavras da Cristina Ferreira de Almeida, nesta análise que espelha tão bem a fragilidade destas situações limite e a sua dependência daquilo a que chamamos "sorte". Ou "azar", dependendo do prisma. Em qualquer dos casos, haverá uma insondável moral a tirar desta aparente ironia?

publicado por Ana Vidal às 23:22
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22 comentários:
De Mike a 6 de Maio de 2008 às 00:20
Li o post da Cristina Ferreira de Almeida e não comentei. Porque estou a fazê-lo agora? Por causa da pergunta que coloca no fim do seu texto. Por mais que tente, não consigo encontrar moral alguma , mesmo que insondável, dessa aparente ironia. Acho o caso tão aberrante e doentio que, confesso, nem consigo ter uma linha de raciocínio minimamente lúcida.
De Ana Vidal a 6 de Maio de 2008 às 00:53
Eu também não consigo, Mike. Tudo isto me ultrapassa e me deixa ainda mais confusa.
De psb a 6 de Maio de 2008 às 00:36
Também duvido que se possa retirar qualquer espécie de moral desta aberração. Apesar deste caso ainda estar envolto em muita neblina, densa, e, muito provavelmente, ainda surgirem mais elementos. Como o do 'canalizador', visita com alguma regularidade da cave/prisão, já surgido. No entanto, fico perplexo com o aparente desconhecimento da mãe/avó, do mundo sórdido que existiu debaixo dos seus pés durante 18 anos. Não houve, nunca, um sinal, um deslize, um barulho, nada que a tivesse feito desconfiar de alguma coisa de anormal? Como é que se consegue escamotear este absurdo, durante tanto tempo, vivendo com outra pessoa?
De Ana Vidal a 6 de Maio de 2008 às 01:00
Há mil perguntas que podemos fazer e que ficam no ar, cada vez que se fala nesta história. Nunca, em quase 20 anos, nenhuma daquelas crianças que viviam fora da cave teve um comportamento ou uma palavra que denunciasse a situação, ou pelo menos que levantasse uma suspeita? O que me parece é que há muita conivência aqui de outras pessoas, o que torna tudo ainda mais aberrante. E quem construiu todas aquelas divisões na cave? Foi o homem, sozinho? Sem barulho? Não sei, cada pergunta levanta muitas outras e tudo parece absurdo, uma história mal contada.
De rita ferro a 6 de Maio de 2008 às 08:49
Eu consigo comentar isto com uma frase do Raul brandão . Ou é do Pascoaes ? Não me lembro, mas seja dum ou doutro, adequa-se:

«Tirem ao homem a sua humanidade e o seu corpo revestir-se-á de pêlos num instante.»

De Ana Vidal a 6 de Maio de 2008 às 12:42
Não sei de qual deles é, mas é "na mouche"!
De fugidia a 6 de Maio de 2008 às 10:12
A "improbabilidade assustadora" da doença genética apenas acresce à "improbabilidade assustadora" de se ser presa pelo próprio pai, sendo violada por ele tantos anos no mais (aparente) absoluto segredo e com ele ter tantos filhos, alguns deles que viveram tantos anos isolados de tudo e de todos.
Não me canso de repetir: o ser humano é capaz do mais extraordinário e do mais horrendo: especialmente com os seus...

Beijinho, querida AV
De Ana Vidal a 6 de Maio de 2008 às 12:48
É verdade, Fugidia. Se esta história fosse o guião de um filme de terror, diríamos que tem muitas falhas e que é inverosímil...

Beijinho
De rita ferro a 6 de Maio de 2008 às 10:33

Esta história horrenda, se não responde, configura (ao menos) a pergunta de muitas maneiras: que amor fundamental faltou a esta criatura? De que mal terrível foi vítima? De que sofreu na infância que justifique tamanha monstruosidade? A genética ou a loucura serão desculpa para tudo? E, sobretudo: que continuará a perturbar-nos sempre, nestas histórias? A atrair-nos, como nenhum outro espectro? É sempre o espelho, ou a possibilidade de antevermos a nossa própria insanidade, o nosso próprio desequilíbrio, vertigem? O que será, afinal, um criminoso, se não qualquer de nós, numa hora negra, nesse abismo que nos mutila, de um dia para o outro, do resto da humanidade, privando-nos para sempre do amor, da ternura e da compreensão do próximo? E o verdadeiro criminoso ou louco não será aquele que acredita que pode dar-se ao luxo de dispensá-los?

De Ana Vidal a 6 de Maio de 2008 às 12:38
Rita, acho que é isso mesmo: o que mais nos atrai é muitas vezes também o que mais nos assusta (atracção do abismo?) e o pior de tudo é acharmos que estamos imunes ao perigo de cedermos ao nosso lado negro. Se andares alguns posts para trás, verás que reflecti sobre isso a propósito das corridas de touros e daquilo que representam para quem (como eu) se sente atraído por esse tipo de espectáculo, contra toda a racionalidade. O post chama-se "Um olé nos genes" e deu alguma polémica quando o escrevi. Já agora, convido-te a comentá-lo também.
De cristina ribeiro a 6 de Maio de 2008 às 11:31
A mente humana pode seguir caminhos tão turtuosos, de uma negritude tão imensa!!!
Beijinho, Ana
De Ana Vidal a 6 de Maio de 2008 às 12:41
É verdade, Cristina. A mente humana tem ainda muito pouco tempo de "formatação civilizacional", comparado com aquele em que foi livre e selvagem...
De O Réprobo a 6 de Maio de 2008 às 15:01
Querida Ana,
para evitar a propagação das atracções fatais por comportamentos (tão) estranhos vale também a prescrição dos cortes radicais que no outro dia A chocaram, lá nas «Afinidades...». Há sempre em muitos de nós a submissão a um hipnotismo pelo abismo, mesmo o moral, que leva alguns, como a galinha e o risco, a ficar vidrados no que lhes parece desusado e viciados na experimentação do Maligno.
Beijinho
De Ana Vidal a 6 de Maio de 2008 às 16:57
A galinha e o risco, Paulo? Essa confesso que não percebi...
Mas lá que o Maligno nos atrai como nada mais, lá isso é verdade. E é bom termos essa consciência, para sermos capazes de lutar com essa atracção, não é?
Bjs
De Lord Broken Pottery a 6 de Maio de 2008 às 23:36
Oi, Ana, vim matar a saudade, encontrei casa nova. O assunto também me toca demais. Acho muito difícil falar dele. Fico com muita raiva e ódio. A ignorância é uma coisa que me aflige demais.
Beijo
De Ana Vidal a 6 de Maio de 2008 às 23:55
Milord, que boa surpresa! Lamento tê-lo recebido com um post tão triste, mas prometo que amanhã deixo um miminho para si, meu amigo. Venha sempre, que as saudades por cá também eram muitas!

Beijo grande
De OnceinaWhile a 7 de Maio de 2008 às 09:49
.. ao tomar conhecimento desta e de outras barbaridades, feitas pelos homens e para os homens, de uma Humanidade a que me orgulho de pertencer, só me apetece voltar a ser criança pequena para que alguém me explique os porquês, com todas as letras e de maneira a que eu entenda ..
Triste. Muito triste. Tão triste.
De Ana Vidal a 7 de Maio de 2008 às 19:26
Seria inexplicável para uma criança, Once. Até para um adulto... como se explica uma aberração?
De Huckleberry Friend a 7 de Maio de 2008 às 16:12
O belo texto da Cristina Ferreira de Almeida pôs-me a imaginar quantos casos parecidos ou horrores equiparáveis haverá por descobrir... lidos os comentários à tua entrada, Ana, arrepia-me pensar que aquele a quem chamamos "monstro" (com toda a justiça!) é, embora sem humanidade, um ser humano. Não o sublinho para atenuar o que quer que seja. Pelo contrário, tento extrair uma aproximação à moral da história, que não vislumbro. E só me sai isto, que já sabemos, embora às vezes prefiramos fingir que não: o ser humano é capaz de bestialidades extremas e, de cada vez que pensamos que atingiu o tecto, surpreende-nos com algo mais. Fritzl é da nossa espécie. E isso é o que tem de mais abjecto.
De Ana Vidal a 7 de Maio de 2008 às 19:25
E também o que tem de mais assustador, Huck...

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