Quinta-feira, 13 de Março de 2008

Observatório V



Inspiração Divina


Aborto (1), experiências de manipulação genética (2), pedofilia (3), pobreza extrema de uns e riqueza escandalosa de outros (4), poluição do ambiente (5) e tráfico de droga (6).

Pronto! Aí estão os 6 novos pecados, novinhos em folha, emanados de Sua Eminência, o Cardeal Ratzinger. A juntar à avareza, gula, inveja, luxúria, orgulho, preguiça e raiva (ler, a propósito e porque está bem escrito, ‘Os 7 Pecados Capitais’ de vários autores, editado pela Casa das Letras em 1998), já nossos velhos conhecidos de mais de catorze séculos (Gregório I, séc.VI), com que nos habituámos a viver, temendo sempre, no entanto, que o olho da serpente estivesse à espreita (Oh Eva, o que ‘fostes’ tu fazer...).

Muito francamente, apesar de me saber católico qb (menos de missas e mais nas práticas de cada dia) e ter sido educado em colégio de jesuítas durante toda a minha vida escolar, é-me difícil conseguir encaixar o modernismo destes novos pecados, agora sancionados pela hierarquia maior da Igreja Católica.

Digo mais. Acho ridículo e não engulo esta materialização do pecado, seja lá o que isto for. Juntava-os mais depressa aos Dez Mandamentos do que ao rol dos Capitais. Passavam a ser Dezasseis, os Mandamentos, em vez de Treze, os Pecados, que, já de si, é número de azar para muito boa gente.

Sinceramente, acho que a Igreja Católica devia ter coisas mais importantes a que se dedicar, nos dias que correm. Fico pasmado como não consegue (ou não quer) mudar de posição, por exemplo, quanto ao uso do preservativo e à utilização de métodos anti-concepcionais, como auxiliares básicos do controlo da natalidade indesejada e da prevenção das doenças sexualmente transmitidas, flagelo tão actual. Qualquer deles tem, certamente, uma contribuição importante para minorar o número de abortos que por aí se fazem, hoje em dia com cobertura legal. Escusava de vir agora dizer, pela porta do cavalo, que o aborto passa a pecado mortal... não dando com uma mão e a tirar com a outra...
E fico perplexo e sem perceber, como é que um pobre de pobreza extrema, tal como um rico de riqueza escandalosa, se sentirá no confessionário ao confessar este seu pecado. O rico ainda poderá sentir algum peso na consciência se, acaso, tiver enriquecido de forma menos honesta, para não dizer mesmo ‘vigarista’, ou à custa da exploração de terceiros. Mas, e o pobre? Vai confessar-se de ter tido azar na vida? De não ter tido oportunidades para sair da sua pobre condição? Ou de não as ter sabido aproveitar?

E que penitência lhes dará o padre? Fosse eu (lagarto, lagarto, que eu não dou para padre) daria ao rico três rosários de seguida, obrigando-o a deixar um cheque na caixa das esmolas, para o aliviar desse pecadão em que vive. Ao pobre, uma Avé Maria e cinco euros para comer uma bucha e beber uma cerveja... para já não falar nas dificuldades que sentiria perante o pedófilo, o traficante, o poluidor e o cientista geneticamente manipulador.

À luz desta nova clarividência, que duvido seja divina, vão aumentar exponencialmente os pecadores desta vida. Ai vão, vão.

Haja Deus!
Pedro Silveira Botelho
(Imagem: Os sete pecados mortais, de Bosch - clicar para ver em pormenor)
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publicado por Ana Vidal às 21:14
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3 comentários:
De pecador a 15 de Março de 2008 às 11:19
Atenção, os novos pecados são Sociais e não Capitais. Não confundir, portanto. O assunto presta-se para brincadeiras, é verdade, mas faz sentido que se alerte para as chagas sociais dos nossos tempos, acho eu.
Um abraço
De Anónimo a 14 de Março de 2008 às 23:27
Concordo inteiramente. É difícil encaixar mais pecados na nossa cartilha, e ainda por cima os que vêm de um Papa estático e arrogante. Que saudades de João Paulo II. Esse sim, um exemplo de vida.
De av a 14 de Março de 2008 às 01:44
Bom texto, Pedro. Também acho tudo isto absurdo, e sempre que penso no fausto, ostentação e intrigas que existem no próprio Vaticano, pergunto-me com que autoridade emana sentenças para o mundo. Para não falar em tudo o resto, no que toca a pecado. Onde está o exemplo? Só em Cristo, mas não na interpretação humana que tem sido feita dos ensinamentos que nos deixou.

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