Sexta-feira, 25 de Abril de 2008

Estado de graça



Ainda venho em estado de graça. Acontece-me isto sempre que gosto muito de um espectáculo, seja um concerto, uma peça de teatro ou um filme. Hoje, foi cinema. Ou mellhor, foi teatro. Bom teatro inglês. Bem, na verdade, mesmo, foi bom teatro inglês filmado: SLEUTH - Autópsia de um crime (II). Uma nova versão, com o mesmo título, do magnífico filme de Mankiewicz (lembram-se dele?), que não fica atrás do original. Pelo menos é esta a minha opinião, ao contrário da da maioria dos críticos.

Tudo é um luxo: as maravilhosas interpretações de Michael Caine (um dos meus actores preferidos, aqui em todo o seu esplendor) e Jude Law (que neste filme se consagraria como actor, caso precisasse ainda de provar alguma coisa), num duelo alucinante de manipulação e  perversidade; o argumento de Harold Pinter (nada menos do que o Nobel da Literatura, esse mesmo, a assinar também uma breve mas convincente intervenção como actor secundário); a realização de  Kenneth Branagh, primorosa e originalíssima; o cenário obsessivo e luxuoso, uma mansão do séc. XVIII transformada e decorada num estilo ultra-moderno, clean e tecnológico. Será preciso dizer mais?

Corram, já amanhã, enquanto o filme ainda está numa sala de cinema (eu andava há que tempos para vê-lo mas só hoje fui, e já deve estar quase a sair do circuito comercial), porque vê-lo depois, em casa, já não vai ser a mesma coisa. Vão faltar os magníficos grandes planos em versão digna desse nome, vai faltar a amplitude máxima da banda sonora, vão faltar muitos pormenores. Vai faltar a excitação das luzes a apagarem-se. Há uma coisa que só uma sala de cinema pode proporcionar a um bom filme: torná-lo ainda melhor.

E... enfim, para que não digam que deixei passar a data de hoje sem uma alusão, ao menos, ao seu significado, aqui vos deixo uma canção que é uma verdadeira jóia de bom gosto e qualidade, ou não fosse do Chico Buarque:


(Chico Buarque - Tanto Mar)

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publicado por Ana Vidal às 23:52
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15 comentários:
De Mike a 26 de Abril de 2008 às 01:16
Não. Não precisa dizer mais, AV. Não tivesse eu a criançada toda cá em casa, os que estão cá sempre e os que quase sempre cá estão (risos), já amanhã iria ver se essa Autópsia de um crime me deixaria também em estado de graça, tal é a forma vibrante e contagiante com que escreve.
De Ana Vidal a 26 de Abril de 2008 às 01:37
Espero é que o meu entusiasmo não seja a sua decepção, Mike... mas não acredito que haja alguém que não se renda, pelo menos, às interpretações. Valeria a pena, só por isso.
De rita ferro a 26 de Abril de 2008 às 03:04
Vi a fita original há pouco tempo e adorei, pelo que vou ver com o maior gosto este remake! Depois comento, obrigada pela sugestão!
De Ana Vidal a 26 de Abril de 2008 às 09:59
Conhecendo-te, acho que não vais ficar decepcionada, Rita. É muito diferente do original, como eu dizia ao Paulo, e ainda bem.
De O Réprobo a 26 de Abril de 2008 às 08:33
Querida Ana,
eu adoro o filme antigo. Cane vai no mesmo, ou troca de papéis?
Quanto a Branagh, pode não convencer (até agora, pelos vistos) na regie, mas em matéria de teatro filmado, foi sua e de Emma Thompson a mais extraordinária interpretação que vi até hoje, em «Look Back In Anger» de John Osborne.
Beijinho
De Ana Vidal a 26 de Abril de 2008 às 09:56
Michael Caine agora é o marido, Paulo (passaram mais de 30 anos...) mas eu acho que não fica a dever nada ao grande Olivier. Deve ser muito interessante para um actor fazer dois papeis do mesmo filme, com igual intensidade, anos depois. Jude Law é o jovem amante da mulher do escritor, e é também excelente neste papel. São os únicos actores em cena (em palco, diria eu), com excepção de uma breve aparição do próprio Harold Pinter no papel de detective, que é também o argumentista desta versão. A realização de Branagh é originalíssima, não percebo as críticas negativas. O grande desafio é repetir um filme consagrado e memorável sem copiá-lo, acho eu. E aqui tudo é diferente.
De Teresa Ribeiro a 26 de Abril de 2008 às 23:54
Michael Caine também é um dos meus actores favoritos :)
Ainda não vi o filme, mas é a minha prioridade absoluta. Podia lá perder a oportunidade de ver Jude Law em ecrã gigante!
De Ana Vidal a 27 de Abril de 2008 às 00:10
Nem que fosse só por isso, Teresa, já valia a pena! Mas há mais, muito mais, para ver neste filme. Não perca.
De JG a 27 de Abril de 2008 às 22:02
Há uns anos (1972), vi a fita original em que Laurence Olivier e Michael Caine brilhavam num filme superior de Joseph L. Mankiewicz.
Não posso dizer que tenha sido um dos filmes da minha vida porque só me lembrei dele agora, com o aparecimento desta versão.
Mas... não há amor como o primeiro. Nem Michael Caine é Laurence Olivier , nem Jude Law é Michael Caine quando jovem e, muito menos, Kenneth Branagh é Mankiewicz.
Há obras que são intocáveis e não devem ser copiadas. Esta é uma delas.
Numa escala de 0 a 5, 5 para a primeira versão, 2 para esta, apenas pelos que não tiveram a dita de ver o primeiro e se vão entusiasmar com a história tão bem engendrada por Harold Pinter.

500 para a canção do Chico.

Beijo
De Ana Vidal a 27 de Abril de 2008 às 22:25
Não és o único a ter ficado decepcionado com esta versão, JG. Mas o que eu gosto nela é exactamente não ser uma cópia da primeira, que é inesquecível. Não as comparo, são duas abordagens diferentes. E o Michael Caine de agora, para mim, é tão ou mais espantoso do que o dessa época.
Quanto ao Chico, é bom em todas as épocas!
Beijo
De Sofia a 28 de Abril de 2008 às 11:51
Li as críticas e praticamente desisti da ideia de ir vê-lo ao cinema, mas se a Madrinha diz que é bom eu acredito!

beijinhos

p.s. Boa escolha musical, já a ouvi ao vivo... AMEI!
De Ana Vidal a 28 de Abril de 2008 às 12:34
Não quero responsabilidades, miúda! Depois ainda me pedes o preço do bilhete de volta...
Normalmente não ligo nenhuma às críticas, e quando as leio é quase sempre para fazer o contrário do que me recomendam. Sabes como eu sou.
Esta versão é completamente diferente da primeira, muito mais agressiva e mais de acordo com as atitudes de hoje em dia. Uma "luta de galos" que achei fascinante.

Também vi o Chico ao vivo, há muitos anos. Desta vez não fui, mas tenho pena.

Beijinho
De Huckleberry Friend a 28 de Abril de 2008 às 13:15
Aqui uma versão do Chico, aqui outra</i>. Hoje uma versão de um filme, outra há uns anos... ouvi dizer mal deste novo Sleuth e bem do velho (mas isso também é um clássico...). Acho que vou querer ver os dois, para comparar. (http://codornizes.blogspot.com/2008/04/aqui-posto-de-comando-das-foras-armadas.html)
De Ana Vidal a 28 de Abril de 2008 às 16:21
Fazes bem, Huck. Também gosto sempre de decidir por mim própria se gosto ou não de qualquer coisa. Não posso garantir nada, claro, mas a nova versão é muito diferente da primeira, e ainda bem.
Obrigada pelo "outro" Chico. Esse é que é bom em qualquer versão...
De Huckleberry Friend a 28 de Abril de 2008 às 13:15
Aqui uma versão do Chico, aqui outra</i>. Hoje uma versão de um filme, outra há uns anos... ouvi dizer mal deste novo Sleuth e bem do velho (mas isso também é um clássico...). Acho que vou querer ver os dois, para comparar. (http://codornizes.blogspot.com/2008/04/aqui-posto-de-comando-das-foras-armadas.html)

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