Segunda-feira, 21 de Abril de 2008

Duplicidade

 

SABERÁS que não te amo e que te amo

posto que de dois modos é a vida,
a palavra é uma asa do silêncio,
o fogo tem uma metade de frio.
Eu te amo para começar a amar-te,
para recomeçar o infinito
e para não deixar de amar-te nunca:
por isso não te amo todavia.
Te amo e não te amo como se tivesse
em minhas mãos as chaves da fortuna
e um incerto destino desditoso.
Meu amor tem duas vidas para amar-te.
Por isso te amo quando não te amo
e por isso te amo quando te amo.


Quem mais para dizê-lo assim tão bem, se não o grande Neruda?

(Pablo Neruda, in Cem Sonetos de Amor.
Tradução de Carlos Nejar
Imagem - Daphne, de Teresa Cálem)
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publicado por Ana Vidal às 19:50
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17 comentários:
De fugidia a 21 de Abril de 2008 às 21:49
Amo Pablo Neruda, querida AV (ele e Fernando Pessoa são os meus preferidos).
No meu cantinho tenho postado alguns mas o que mais me arrepia (e ofereci-o a uma pessoa que me foi especial) é este:

«Não te quero senão porque te quero,
e de querer-te a não te querer chego,
e de esperar-te quando não te espero,
passa o meu coração do frio ao fogo.
Quero-te só porque a ti te quero,
Odeio-te sem fim e odiando te rogo,
e a medida do meu amor viajante,
é não te ver e amar-te,
como um cego.

Talvez consumirá a luz de Janeiro,
seu raio cruel meu coração inteiro,
roubando-me a chave do sossego,
nesta história só eu me morro,
e morrerei de amor porque te quero,
porque te quero amor,
a sangue e fogo.»

Beijinho.
De Ana Vidal a 21 de Abril de 2008 às 22:39
Conheço, é uma beleza. E tem graça, tenho uma história a propósito desse mesmo soneto. Um dia destes conto-lha, Fugidia.
Um beijinho
De O Réprobo a 21 de Abril de 2008 às 23:06
Há no temor da perda uma passibilidade de comparação aos amigos dos animais que recusam ter um, para não sofrerem desgostos. Claro que no caso vertente é possível fazer a conjugação "amo" significar alternadamente sentir e posse, mas o poema perderia a envergadura que advém do paradoxo.
Beijinho
De Ana Vidal a 22 de Abril de 2008 às 00:16
Quem escolhe não viver para não sofrer... não merece viver, de facto! Isto pode parecer muito radical, mas é o que eu penso. E já disse bem pior aqui, não é?
Um beijinho
De Júlia a 23 de Abril de 2008 às 00:08

Engraçado, Paulo, encontro aqui paralelismos entre a filosofia de Pessoa "Amar é querer /e não querer"; "

Assim como na peça "O Marinheiro" e no tríptico "O Privilégio dos Caminhos" há o temor de amar, pois todas os tripulantes da metafórica Nave, chamemos-lhs assim, fogem no momento em que atingiram a meta sonhada.

De P. Barbosa a 21 de Abril de 2008 às 23:15
Olá, criei o meu primeiro post no meu blog do sapo http://sopadasvontades.blogs.sapo.pt/

Por favor, percam um minuto e digam-me o que acham e se gostam.

Obrigado
De Mike a 21 de Abril de 2008 às 23:31
Pablo Neruda escrevia sobe o amor como quase ninguém o conseguia fazer. Quase porque para mim, e por alguns será porventura considerada uma heresia, mas não faz mal que aqui a porta está aberta e as palavras leva-as o (bom) vento, quem o faz melhor é Camões e Vinicius.
De Ana Vidal a 22 de Abril de 2008 às 00:14
Heresia porquê, Mike? Camões não precisa sequer de justificação, e o Vinicius é também um dos meus poetas de estimação... escolhas de luxo, portanto!
Como diria o Poetinha, Saravá!
De Mike a 22 de Abril de 2008 às 00:43
:)
De Manecas a 22 de Abril de 2008 às 12:02
Com as óbvias desculpas pela intromissão na troca de comentários de tão ilustre plateia, permitam-me um pensamento fugindo de votações ou hierarquizações...
Poetas que nos encantam sobre o amor há felizmente muitos (os muito poucos que um leigo na matéria, como eu, consegue lembrar-se, e sobretudo muitos mais).
Recordo sempre a Florbela Espanca, que significa também um misterioso contraditório: Alguém que tanto sofreu de amor e por amor, e que o escreve divinamente.
Lembro também o José Carlos Ary dos Santos, que tem poemas lindíssimos e que os dizia de um modo porventura "excessivo" mas que me traz saudades, ainda hoje.
Do Vinicius diria que é um mestre da escrita dos sentimentos, do amor, da saudade, da amizade...E que na companhia da sua garrafinha de whisky nos levava por céus e nuvens inexplorados...!!!
Deixo-vos um texto do Vinicius que li há pouco tempo sobre a amizade...e que de vez em quando releio...Espero que gostem!

Procura-se um Amigo
Não precisa ser homem, basta ser humano, basta ter sentimento, basta ter coração.
Precisa saber falar e calar, sobretudo saber ouvir. Tem que gostar de poesia, de madrugada, de pássaro, de sol, da lua, do canto dos ventos e das canções da brisa.
Deve ter amor, um grande amor por alguém, ou então sentir falta de não ter esse amor.
Deve amar o próximo e respeitar a dor que os passantes levam consigo. Deve guardar segredo sem se sacrificar.
Não é preciso que seja em primeira mão, nem é imprescindível que seja em segunda mão. Pode já ter sido enganado, pois todos os amigos são enganados. Não é preciso que seja puro, nem que seja de todo impuro, mas não deve ser vulgar.
Deve ter um ideal e medo de perdê-lo e, no caso de assim não ser, deve sentir o grande vácuo que isso deixa.
Tem que ter ressonâncias humanas, e o seu principal objectivo deve ser o de amigo. Deve sentir pena das pessoas tristes e compreender o imenso vazio dos solitários.
Deve gostar de crianças e lastimar as que não puderam nascer. Procura-se um amigo para gostar dos mesmos gostos, que se comova, quando chamado de amigo.
Que saiba conversar de coisas simples, de orvalhos, de grandes chuvas e das recordações de infância. Precisa-se de um amigo, para não se enlouquecer, para contar o que se viu de belo e triste durante o dia, dos anseios e das realizações, dos sonhos e da realidade.
Deve gostar de ruas desertas, de poças de água e de caminhos molhados, de beira de estrada, de mato depois da chuva, de se deitar no capim.
Precisa-se de um amigo que diga que vale a pena viver, não porque a vida é bela, mas porque já se tem um amigo.
Precisa-se de um amigo para se parar de chorar. Para não se viver debruçado no passado em busca de memórias perdidas.
Que nos bata nos ombros sorrindo ou chorando, mas que nos chame de amigo, para ter-se a consciência de que ainda se vive.
De Ana Vidal a 22 de Abril de 2008 às 23:28
Esse texto do Vinicius já esteve aqui no Porta do Vento, Manecas. É muito bonito. Também muito bem lembrados, a Florbela e o Ary.
E podes sempre intrometer-te, que o teu intrometer tem graça...
Beijinhos
De BLOGSAPO a 22 de Abril de 2008 às 10:43
Olá divulga o meu blog: blog_real.blogs.sapo.pt
De Sofia a 22 de Abril de 2008 às 11:28
Miúda, sabes que adoro o Neruda ! Primeiro, amava-o só da poesia, que tanto tentei decorar, mas depois, fiquei-lhe com um carinho ainda mais especial porque a primeira vez que comentei aqui era uma entrada sobre ele! Parece ter sido há séculos! Chamava-se 'Palavras com dedos', lembras-te?

Este poema adoro, como todos aqueles em que ele canta o amor com a melodia das palavras. Neruda canta o Amor em todos os seus lados e faz nascer esta dualidade perfeita que é, no fundo, o que é o amor.

beijos miúda e boa viagem

P.S. Linda a pintura que puseste!
De Ana Vidal a 22 de Abril de 2008 às 23:19
Lembro-me muito bem. Era uma frase que eu apanhei ao ver o filme pela terceira ou quarta vez, e que achei fantástica: "Quando um homem começa por tocar-nos com palavras, vai muito longe com as mãos". É dita por uma velha em tom resmungão, mas é deliciosamente verdadeira. Por isso chamei ao post "Palavras com dedos"

Beijinhos, querida
De Sofia a 23 de Abril de 2008 às 12:12
Sabes que ainda me diverti a rever esses comentários... e senti algumas saudades desse tempo de romances medievais.

Beijinhos
De OnceinaWhile a 22 de Abril de 2008 às 11:48
Neruda "descomplicou" o amor .. o amor que insistimos em pensar antes de sentir .. e fê-lo nestas quadras de uma forma magistral ..
eu, que me rendi ao seu carteiro mas que dele próprio não tenho grandes leituras :)

Beijinho Ana *
De Ana Vidal a 22 de Abril de 2008 às 23:04
Tem toda a razão, Once. O amor é para se sentir, muito mais do que para se pensar. Pablo Neruda sabia-o bem e disse-o melhor ainda.
Beijinho

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