Sexta-feira, 18 de Abril de 2008

Uma homenagem


Pelo Paulo Cunha Porto, que lhe dedicou um post há poucos dias no seu
Afinidades Efectivas, soube do centenário de uma figura carismática deste país, que conheci pessoalmente e de quem guardo as melhores lembranças: António Lopes Ribeiro.


Era um homem notável, e um conversador sem paralelo. Conheci-o há muitos anos, em circunstâncias curiosas: ele era uma espécie de "sócio honorário" da agência de publicidade em que eu trabalhava como copywriter, à época.  Já afastado, pela idade, das múltiplas actividades que tinham feito da sua vida uma experiência única, tinha no entanto ainda bastante energia e vontade de comunicar - a sua paixão, afinal - e por isso aparecia de vez em quando por lá.


Ora, quem conhece por dentro uma agência de publicidade, sabe que o ritmo de trabalho é frenético e não se compadece com pausas para conversas, por muito interessantes que sejam. Por isso, todos "fugiam" daquelas visitas inesperadas, que atrapalhavam o corre-corre dos trabalhos "para ontem" de que se fazia a nossa rotina diária. Eu era a mais novata (e, consequentemente, a que tinha menos capacidade de recusar fosse o que fosse) e por isso fui destacada para entreter o ilustre visitante, que queria companhia e  não entendia porque não se havia de parar um bocadinho para conviver, simplesmente. 


Foram precisos uns bons anos mais para eu perceber como ele tinha razão, e como era mais sábio do que todos nós juntos! Na altura, pareceu-me injusto que só o meu trabalho fosse interrompido. Mas isso foi só na primeira vez... daí em diante, era já com enorme prazer que o recebia e que o ouvia desfiar memórias de uma vida absolutamente extraordinária, passada sobretudo nessa galáxia da sétima arte, que dá a tudo uma patina de pura magia. Tinha convivido de perto com grandes estrelas internacionais e conhecia inúmeras histórias, umas picantes e outras comoventes, que contava com uma vivacidade impressionante. Eu ficava a ouvi-lo, encantada, interrompendo de vez em quando para fazer perguntas a que ele respondia com paciência e visível satisfação.


Foi uma aprendizagem preciosa, a que recebi daquele homem encantador. Era um espírito vivo e aventureiro, ágil e cheio de sentido de humor. Hoje, agradeço aos meus stressados colegas de profissão a distinção de me terem escolhido para tal tarefa, porque tive assim a oportunidade de conviver com uma personalidade admirável. Mas o que eu não sabia - estamos sempre a aprender! - é que ele era igualmente um poeta inspirado. Isso só descobri agora, ao ler a homenagem do Paulo.

Roubei-lhe este soneto, que mostra bem quem era António Lopes Ribeiro, para além daquele homem a preto e branco que dizia, na televisão: "António, diz boa noite a estes senhores!"


Aqui fica o Poeta, com merecida maiúscula:


EMPENHO


Tenho a certeza de morrer vestido.
Tarde ou cêdo, não sei - nem me interessa.
Se fôr dum tiro - morro mais depressa.
Se fôr na guerra - morro mais vencido.

Se tiver tempo de reler o Eça
(pelo menos o livro preferido),
já me valeu a pena ter vivido
e ter sabido como se começa.

É fácil acabar. Os dias vãos
correm velozes pela vida fora,
desafiando a morte que me espera.

Quando chegar a inevitável hora,
gostaria que fôsse primavera
e que não fôsse pelas minhas mãos.

Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 18:31
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16 comentários:
De Cristina Ribeiro a 18 de Abril de 2008 às 19:55
Neste seu texto, Ana, reconheci tão bem o homem com quem me cruzei numa viagem de comboio- também eu o escutei assim, deliciada...
Beijinho
De Ana Vidal a 18 de Abril de 2008 às 20:22
É verdade, Cristina. Era impossível não gostar dele.
Um beijinho
De O Réprobo a 18 de Abril de 2008 às 21:32
Querida Ana,
belíssima Memória, contada com mestria e com uma modéstia que não posso deixar passar. Pelo que conheço deste Grande, tenho a certeza de que ficou cativadíssimo pelo Charme e Talento da interlocutora. Como nós, esmagados por ambos e adorando a sensação.

Neste notável poema gosto de tudo, desde logo do título, com o jogo dos sentidos de porfia e de "cunha".
Beijinho e Bem haja!
De Ana Vidal a 18 de Abril de 2008 às 22:33
Não exagere, Paulo. Quem ficava cativada era eu, com as peripécias que ele me contava com imensa graça. Acho que, dos meus talentos (se é que tenho mais algum), ele só conheceu a boa disposição, e mesmo essa a ele se devia, nessas sessões.
Obrigada por me ter reavivado estas boas memórias, e ainda mais por me ter revelado um poeta que eu não conhecia. O soneto é primoroso, de facto.
Um beijo
De fugidia a 18 de Abril de 2008 às 22:27
Minha querida AV,
encantada fiquei eu também com a leitura deste seu post.
Encantada pela forma como escreve e como descreve.
Obrigada por este bocadinho!
Não resisto a um
Beijinho.
De Ana Vidal a 18 de Abril de 2008 às 22:47
Olá, Fugidia! Ainda bem que descobriu o caminho para aqui. E vejo que já se apaixonou pelos sapinhos...
Beijinho
De Crisálida a 18 de Abril de 2008 às 22:31
Adorei o design do blog. Lindo! Parabéns! :-)
De Ana Vidal a 18 de Abril de 2008 às 22:42
Obrigada, Crisálida. Seja bem-vinda.
De joão melo a 18 de Abril de 2008 às 23:36
belo post...tenho de começar a vir aqui mais vezes..
De Ana Vidal a 19 de Abril de 2008 às 00:01
E será muito bem-vindo.
De Júlia a 19 de Abril de 2008 às 22:29

é verdade , Ana! Era impossivel não gostar dele. Eu gostava sem saber quem ele era.

Não conhecia que escrevia e bem!

bom fim de semana!
De Ana Vidal a 20 de Abril de 2008 às 13:14
Eu também não sabia que ele era tão bom poeta. Ou melhor, entretanto lembrei-me de um belo poema dele, magnificamente dito/cantado, em tempos que já lá vão, por João Vilarett: "Procissão". Começava assim: "Tocam os sinos na torre da igreja, há rosmaninho e alecrim pelo chão..." .
Lembras-te?
Bom domingo
De Júlia a 21 de Abril de 2008 às 21:07
...então não havia de lembrar, Ana?...tenho tudo do Vilarett ,por todas as razões e mais alguma´, mas sou sincera, não fazia ideia que a autoria da letra é de An´tonio Lopes Ribeiro!

beijinho
De Ana Vidal a 22 de Abril de 2008 às 00:19
É verdade, Júlia, é dele. Ainda ontem ouvi essa delícia ao vivo, muito bem dita e cantada pelo António Tinoco. E foi aí que me lembrei do autor.

bjs
De vieiracalado a 19 de Abril de 2008 às 23:08
Será que comentei este post noutro blog?
De Ana Vidal a 20 de Abril de 2008 às 13:16
Só por uma enorme coincidência, caro Vieira Calado, mas não faço ideia de qual possa ter sido...

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