Quinta-feira, 17 de Abril de 2008

Observatório

 


É tempo de foguetes


Como seria de esperar, aí estão os primeiros números para os grandes investimentos nas obras públicas que brevemente vão ser lançadas a concurso.

 

Sem surpresas de maior, cá temos os muitos milhões (39 mil) para distribuir pelos mesmos – já os vemos com ar guloso, baba a escorrer aos cantos da boca, mãos a esfregarem-se uma na outra, à espera, em pose, de caça certa no ponto de mira afinado – qual lufada de ar fresco, balões de puro oxigénio para muitos, prontos para orçamentarem as obras que, inevitavelmente, vão derrapar em mais alguns milhões, como tem sido hábito de assumpção pacífica. Não se preocupem! Cá estaremos nós para vos assegurar o pagamento das vossas facturas, nos impostos que, quer queiramos quer não, nos hão-de sacar de uma maneira ou de outra.

 

Assim se passou com a Expo 98 (qual contemporânea exposição do mundo português), com os essenciais 10 estádios de futebol (as moscas agradecem) com o Túnel do Marquês (obrigado Sá Fernandes pelos embargos, pelos meses de espera e os mais não sei quantos milhões), com as obras do metro do Terreiro do Paço (sempre a meter água), com… sei lá, já foram tantas que lhes perdi a conta.


Mas é fantástico que nestes milhões todos, distribuídos entre o novo aeroporto, a nova ponte, o ‘imprescindível’ TGV (acho que as moscas também vão agradecer este investimento crucial), novas linhas de caminho de ferro e outras tantas medidas de ‘progresso’, ainda há espaço para construirmos mais 1000 kms de estradas, 570 dos quais de auto-estradas, como se de bem essencial para o nosso desenvolvimento se tratasse.




O que é uma perspectiva perfeitamente falaciosa. Numa análise comparativa entre várias cidades europeias de importância reconhecida (10), provavelmente muito mais que Lisboa, a nossa capital figura com uns destacados 220 kms, em primeiríssimo lugar, em termos de densidade de auto-estradas por 1000 km2.

 

Noutro critério, que relaciona esta densidade com a riqueza gerada pelos burgos em estudo, os kms de auto-estrada situam-se ao nível dos 50, com casos de 0 kms como Londres, deitando por terra o argumento de que o desenvolvimento está na proporção directa da quantidade de alcatrão portajado.

 

Alguns dos milhões vêm, como habitualmente e até ver, dos cofres da nossa união, no actual quadro de apoios comunitários. Mas será que não haveria outras áreas em que os gastar, investindo em matéria de sustentabilidade a longo prazo, como na educação, por exemplo? É que há tanta falta de gente educada... culta... bem formada... civilizada...

 

Mas, provavelmente, renderá menos votos na caixinha preta daqui a pouco mais de um ano e não tem, que se saiba, um lóbi poderoso (que los hay, los hay) glutão e ávido, recheado de gente influente e importante que tão bem defende os interesses dos que lhe pagam melhor.

 

E, depois, a indústria dos foguetes também se iria ressentir. De certeza que não haveria tantas encomendas de fogo preso, qual fogo fátuo, para incendiar esta alegria do nosso contentamento.


Pedro Silveira Botelho


Etiquetas:
publicado por Ana Vidal às 14:56
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11 comentários:
De Cristina Ribeiro a 17 de Abril de 2008 às 21:32
As verdadeiras prioridades deste país andam a jogar ao esconde- esconde, é o que é; e a miopia dos nossos "grandes" não os deixa enxergar direito...
De Ana Vidal a 18 de Abril de 2008 às 00:55
Estradas e pontes não nos faltam, realmente. O que nos falta é sentido de orientação e um destino para onde ir...
De Anónimo a 18 de Abril de 2008 às 00:57
O que nos falta é um GPS político!
De psb a 18 de Abril de 2008 às 01:14
Eu diria que nos falta um terramoto político. Um pequeno abalo já aí vem: a notícia fresquinha da demissão de LFM. Aguardemos pelos próximos episódios...
De Anónimo a 18 de Abril de 2008 às 10:09
É verdade! Cada vez temos mais acessos, não sabemos é para onde ir.
Aguardo também pelos próximos episódios da novela política portuguesa. É a melhor coisa que passa na televisão.
Ainda não conhecia a nova decoração do blogue. Continua fantástico!
De Anónimo a 18 de Abril de 2008 às 10:12
Nota: Não queria aparecer anonimamente como aconteceu. Vou tentar resolver a situação para a próxima vez. Um beijo. Estrelícia.
De Ana Vidal a 18 de Abril de 2008 às 12:45
Precalços do novo blog, culpa minha.
Bem-vinda, Estrelicia, e obrigada.
Beijinho
De musqueteira a 18 de Abril de 2008 às 14:44
viva!... com tanto milhão bem podiam investir numa catedralzita da cultura. talvez... não sei... aqui o tijolo vai para outros lados.
um beijo e parabens pela nova imagem.
De Ana Vidal a 18 de Abril de 2008 às 16:21
Obrigada, Musqueteira. Pois é, a cultura emprega menos "trolhas" e menos empreitadas, para combater as estatísticas do desemprego e do investimento...
beijo
De RP a 18 de Abril de 2008 às 15:20
Http://essenciadoser.blogspot.com
De Huckleberry Friend a 18 de Abril de 2008 às 15:52
As prioridades são sempre as mesmas. E sempre erradas. Algo está podre no país dos elefantes brancos... menos mal que se foi Menezes. Quem se seguirá? Tomara que alguém que meta algum medo a Sócrates. Não há pior para um Governo - já de si pouco brilhante - do que não ter oposição.
Abraço, Pedro
Beijinho, Ana

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