Terça-feira, 31 de Julho de 2007

A lucidez perigosa


De novo Clarice Lispector, que estou a ler e com quem ando muito sintonizada. Este texto é belíssimo e de uma enorme profundidade. Não é bem um poema (antes uma prosa poética), embora a sua estética o remeta definitivamente para a Poesia.
Há fases assim, de uma visão extra-lúcida das coisas. De pura clarividência. Suponho que todos passamos por elas alguma vez, são aquelas que antecedem uma criação ou um acontecimento muito especial. Um encontro com o que somos por dentro, um olhar mais atento no espelho de todos os dias.
Mas atenção: para quem não sabe, não pode ou não quer enfrentar-se, fica o aviso - a lucidez pode matar.
A lucidez perigosa

Estou sentindo uma clareza tão grande que me anula como pessoa atual e comum: é uma lucidez vazia, como explicar?
Assim como um cálculo matemático perfeito do qual, no entanto, não se precise.
Estou, por assim dizer, vendo claramente o vazio.
E nem entendo aquilo que entendo: pois estou infinitamente maior que eu mesma, e não me alcanço.
Além do que: Que faço dessa lucidez?

Sei também que esta minha lucidez pode-se tornar o inferno humano - já me aconteceu antes.

Pois sei que - em termos de nossa diária e permanente acomodação resignada à irrealidade - essa clareza de realidade é um risco.

Apagai, pois, minha flama, Deus,
porque ela não me serve para viver os dias.
Ajudai-me a de novo consistir dos modos possíveis.
Eu consisto,
Eu consisto,
Amén.
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publicado por Ana Vidal às 08:36
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2 comentários:
De ana vidal a 1 de Agosto de 2007 às 20:03
É verdade, Peri. Subtilmente vc emendou-me, e muito bem: Clarice escreve-se com C (em português do Brasil) e não com SS (em português de Portugal), como eu escrevi. Obrigada, vou já emendar. Com os nomes não se brinca.

beijo, volte sempre
Ana
De peri s.c. a 1 de Agosto de 2007 às 15:13
Clarice, uma mulher misteriosa.

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