Domingo, 4 de Maio de 2008

Feira de Velharias (8)

A eminência parva

Concordo consigo em teoria, Luís Carmelo (Blogues e Meteoros, 3 de Julho). Quantos mais os recém-chegados que vierem agitar as águas estagnadas do templo sagrado e todo-poderoso da intelectualidade portuguesa, mais se ganha em democracia e pluralismo. Os Olimpos intocáveis, que tendem a formar-se num país pequeno e pacóvio como o nosso, são perigosos e não o fazem evoluir. Até aqui, como já disse, de acordo.
Mas esta entrada em cena, inesperada e tempestuosa, do comendador Berardo (o título de comendador já tem qualquer coisa de despropositado) não augura nada de bom, de saudável ou de democrático. Não traz mudança, a não ser que seja a das moscas. A pedrada que esta estranha personagem veio lançar no nosso charco de zombies acordou-nos de repente, mas apenas para descobrirmos mais um candidato a dono do estaminé, sem qualquer promessa de consideração por nós ou pelos nossos interesses. Afrontou os figurões? Sim, claro, mas com a subtileza e a diplomacia de uma catterpiller, o que nos dá a exacta medida da sua arrogância ditatorial. Sem perder tempo, ajustou a mira e foi disparando a eito, atingindo os seus rivais onde as regras da mais básica educação não o permitem. E para quê? Com único intuito de arrasar tudo e voltar a fazer igual, mas à sua medida.
Temos assistido, não duvide, a uma ancestral demarcação de território, à demonstração de força pelo macho dominante. Note as rendições timoratas, os queixumes pífios dos vencidos e a bajulação dos sempre prontos a aplaudir os vencedores. É triste. E é triste porque me parece a última estocada numa fera ferida, já sem condições nem ânimo para se defender. Berardo nem sequer finge interessar-se, não aproveitou o tempo de aprendizagem do poder para polir-se um mínimo e assim não ser tão injurioso na transparência das sua intenções. Mostra o jogo, não por lealdade mas por simples desprezo por adversários e espectadores. Tudo o que quer é pôr-se em bicos de pés e dizer-nos que chegou, já viu e vai vencer. Sem contemplações.
Por tudo isto, não é a saloice que não lhe perdoamos. Não é só a má dicção, são as coisas que diz e como as diz! A fatiota pós-moderna não disfarça a boçalidade, a linguagem desbragada e ofensiva é bem reveladora do perfil e a atitude em geral é simplesmente deplorável. Apresenta-se-nos com a aura de mecenas (ainda por cima, das artes) mas tudo nele nega a mais elementar sensibilidade. É por isso que, deitando mão do nosso último e sempiterno reduto de desforra, recorremos ao humor. O homem presta-se, convenhamos, e essa é a única vingança que nos resta. Já tínhamos, no nosso catálogo de cromos, os tubarões, os boys, as estrelas e as eminências pardas. Agora podemos acrescentar mais um: a eminência parva. 
 
(Publicado pela primeira vez em 7/7/2007)
publicado por Ana Vidal às 19:10
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18 comentários:
De Mike a 4 de Maio de 2008 às 19:30
(muitos risos)... sei que o assunto é sério, mas o que fazer? AV, para o personagem, mecenas = dinheiro. E a senhora está inspirada, caramba! (mais risos).
De Ana Vidal a 4 de Maio de 2008 às 20:08
Mike, este texto já tem quase um ano, a inspiração não é de agora. O pior é que não estive muito longe da verdade...
E não resisto a responder-lhe com uma frase de uma velha anedota: "Cadê a sinhora, pô?" Trate-me por Ana, please...
De Mike a 4 de Maio de 2008 às 20:43
Por quem sois, senh... Ana (risos).
Assim será, doravante. :)
De Ana Vidal a 4 de Maio de 2008 às 20:58
Ah, assim está melhor.
:)
De Júlia a 4 de Maio de 2008 às 21:48
mas o que dá mais raiva é darem-lhe honras de Telejornal e voz a respeito de tudo...

Já tinhamos que baste destes parolos que julgam que o dinheiro compra tudo e este veio institucionalizar o género,
Que raiva, Ana...eu acho que se escrevesses hoje o texto já não sairia tão bem. Deverias estar tipo em estado de choque - risos.
De Ana Vidal a 4 de Maio de 2008 às 22:37
Estava mesmo, Júlia, nem queria acreditar no que estava a ver e a ouvir!
De Júlia a 5 de Maio de 2008 às 21:23
infelizmente a tudo a gente se habitua...

beijo por esta raiva partilhada :-)
De O Réprobo a 4 de Maio de 2008 às 21:18
Querida Ana,
traduzindo em calão o Seu pensamento, mal vai o país em que o intelecto faz vénias ao arrivismo. E falo deste em sentido ético, ão com snobismo cronológico ou classista.
Beijinho
De Ana Vidal a 4 de Maio de 2008 às 22:40
É verdade, sobretudo ao arrivismo bacoco, como é o caso desta figura...
De O Réprobo a 4 de Maio de 2008 às 21:19
Ponha-me, por gentileza, o "n" amputado a "não".
Bj.
De Ana Vidal a 4 de Maio de 2008 às 22:39
Não posso alterar os comentários, Paulo (ou não sei fazê-lo, o que vem a dar no mesmo). Mas percebe-se que é "não".
De psb a 5 de Maio de 2008 às 15:08
Esta espécie arrogante de mecenas (?) de atitude e pose pós-modernas, que parece tratar-nos a todos por imbecis ávidos dos seus muitos milhões, bem que podia ter-se ficado pelo seu cantinho pousado no meio do Atlântico (ainda bem que conheço mais madeirenses, se não ficava a pensar que, daquela ilha, só nos saíam cromos carnavalescos), ou das outras muitas paragens por onde andou a 'construir' a sua fortuna. É que, por cá, além de manchar (mais) o panorama das chamadas figuras públicas, já de si tão coitadinho, não tem criado riqueza ao País mas tão só a si próprio, pelos muitos milhões por que vai multiplicando a sua colossal fortuna, nas operações especulativas em que é mestre. Direito seu de fazer com o seu o dinheiro o que bem lhe aprouver. Só não precisávamos de ter que gramar com a sua presença desprestigiante, como se de um guru da alta finança se tratásse, que nem português sabe falar. É o protótipo do burgesso rico que 'caga' milhões, desculpem-me este português berardino...
De Ana Vidal a 5 de Maio de 2008 às 20:11
Não é um guru da alta finança, Pedro, é mais um urubu da alta finança...
De JG a 5 de Maio de 2008 às 17:16
Ainda está por inventar o adjectivo para classificar essa eminência. Parva é pouco.

A mim dão-me "fernicoques" quando o vejo a debitar alarvidades. Uma eminência que provoca "fernicoques" a um pacato e honesto cidadão, o que é?

FERNICOQUEIRO, FERNICOQUANTE ou FENICOQUILANTE?

Obrigado pela referência. O mérito não é meu. É do Meandros, um brasileiro cheio de piada.

Até logo
De JG a 5 de Maio de 2008 às 20:08
Parece-me que FERNICOQUANTE não se deve escrever assim.
Deverá ser FERNICOCANTE ou FERNICROCANTE.
Poderia ser FERNICOQUANTE, muito mais QUÁQUANTE, se o meu teclado tivesse trema.

E é tudo.

De Ana Vidal a 5 de Maio de 2008 às 20:09
Olha, escrevemos ao mesmo tempo!!!
De Ana Vidal a 5 de Maio de 2008 às 20:09
Gosto de "Fernicoqueiro", JG, mas acho que os coqueiros vão ficar ofendidos com a comparação...

beijo
De maria.musqueteira a 5 de Maio de 2008 às 22:23
... jesus cristo! ;)

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