Domingo, 23 de Setembro de 2007

A Divina Comédia


«É provável que esta seja uma condenação não exclusivamente nossa, mas em Portugal ela vai assumindo contornos macabros. As pessoas estão cada vez mais impedidas de sobreviver à custa das actividades para as quais se sentem vocacionadas. Impedir um homem de viver da sua actividade é condená-lo à morte. Esta dolorosa realidade não pesa senão na consciência dos inconformados. Esses, entregues a contingências várias, responderão ao inconformismo de múltiplas formas. Não sabemos o que se terá passado dentro do actor Pedro Alpiarça. Apenas sabemos que fez rir muitos portugueses em séries de comédia passadas na televisão, sabemos que estava desempregado e, talvez por isso, agravadamente deprimido, sabemos que saltou de um quinto andar e morreu. Sabemos que se suicidou. Os telejornais estão mais preocupados com o desemprego do multimilionário treinador de futebol José Mourinho. Este só tem uma certeza: continuará a ver futebol, a jogar, a treinar, a exercer a actividade para a qual nasceu, a dar corda à sua vocação e a ser muito bem pago por isso. José Mourinho, desempregado, sabe que para ele o desemprego não será um problema. As televisões é que parece que não, tão preocupadas que estão com o desemprego de José Mourinho.»
Encontrado no Insónia, do Henrique Fialho. Uma comparação impressionante, para reflectir.
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publicado por Ana Vidal às 11:29
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13 comentários:
De ana vidal a 25 de Setembro de 2007 às 02:27
Verdade, PP.
E havemos de voltar ao tema: não do Mourinho, mas do suicídio. Há muito para dizer.
De pedro sanchez a 24 de Setembro de 2007 às 17:51
Mas será que o suicídio do Pedro Alpiarça vende jornais?
Pois infelizmente é esse o problema da sociedade, vender o que é vendável, o resto é descartável.
Nos teus "30 Segundos" tinha já abordado, pela rama este assunto, e agora também não o irei fazer, não só pelo facto de me sentir impotente, como pelo facto de não saber exprimir com a profundidade que este tema merece.
Mas apenas acrescento uma nota:
Que se lixem os Mourinhos deste País e que nos salvem os Deuses de nos tornar-mos Alpiarças.
De ana vidal a 23 de Setembro de 2007 às 23:07
Desculpem. Interrompo a conversa porque vou ver Il Postino, que está a começar na 1. Não resisto a ver mais uma vez.
De ana vidal a 23 de Setembro de 2007 às 22:38
É verdade que a decisão resulta de um contexto, e que o mundo à volta a influencia sempre. Mas é sempre uma leitura desse contexto que leva à decisão, e essa interpretação é individual. As drogas são outra forma de suicídio, acho eu. Uma fuga mais lenta e nem sempre consciente. Mas uma fuga, sem dúvida.
De manuel teixeira a 23 de Setembro de 2007 às 22:02
Percebi agora o contexto e compreendo o raciocínio.
De Anónimo a 23 de Setembro de 2007 às 20:42
Não falo do acto em si, porque o acto surge como resultado de algo. Portanto, falo de tudo o que leva ao acto. Ninguém decide com base em nada. Se a decisão é individual, os elementos que a constroem não se limitam ao individual. E a relação do eu com o mundo? Se alguém desiste deste mundo é por alguma razão. Não sabemos qual, mas que é,é...
De ana vidal a 23 de Setembro de 2007 às 20:26
Eu diria mais: individual e absolutamente íntimo, a não ser nos casos de suicídio colectivo. Mas mesmo nesses casos a vontade e a decisão é só de um (o líder), os outros limitam-se a segui-lo.
De Manuel Teixeira a 23 de Setembro de 2007 às 20:14
..."No entanto, penso que não se pode ver o suicídio apenas numa perspectiva individual."...

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Caro/a Anónimo/a

Permita-me discordar.
Se há algo "individual", total e completamente individual, é o suicídio.
E para lhe dizer com franqueza, não percebo muito bem o que aqui nos tenta dizer neste seu comentário.
Mas talvez a culpa seja minha. Desculpe.

Manuel Teixeira
De Anónimo a 23 de Setembro de 2007 às 19:14
Também sou leigo no assunto. No entanto, penso que não se pode ver o suicídio apenas numa perspectiva individual. E a sociedade? Acredito que, de uma maneira ou de outra, todos estamos sós. Mas a sociedade em que nos inserimos existe e determina até que ponto a minha solidão é aceite, ou não, por mim.
Não sei até que ponto os valores da sociedade (em Portugal e no mundo)não determinarão a incapacidade de algumas pessoas se ajustarem nela, com a agravante de se sentirem impotentes para alterar o que quer que seja. Por isso é que muitos usam caminhos que, de certo modo, correspondem a essa morte de facto. Estou a lembrar-me, nomeadamente, de formas de alienação, voluntárias ou involuntárias, como sejam as drogas ou a loucura.
De Manuel Teixeira a 23 de Setembro de 2007 às 14:24
Retorna Pierre de Coubertin,
o Mundo do Desporto precisa de ti.

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