Sábado, 12 de Abril de 2008

Dia de abrir envelopes

Há sempre aquele momento. Aquele terrífico e intimidante momento de abrir os envelopes. Olho-os a medo, tentando estabelecer com o exterior, civilizado e inócuo, um pacto de não agressão. É inútil. A desproporção de forças é total, nada a fazer. De que forma poderia eu vingar-me? A ideia absurda deixa-me, pelo menos, um sorriso. Volto a olhá-los, tentando agora outra abordagem: a do optimismo que sempre me salvou, em todas as situações difíceis por que passei na vida. Mas não é fácil, como o foi em tempos, antes daquela vez. Daquela vez em que tudo mudou, em que nem o meu mais delirante optimismo podia iludir o que o Abre-te Sésamo revelava. Nada de tesouros, nada de pérolas e ânforas de ouro. Só uma desolada frase, composta de cinco palavras letais. Todas elas, uma por uma. As palavras também podem ser letais, mesmo sendo feitas com as mesmas letras com que se escreve uma declaração de amor. Nem o pobre "de" parecia inofensivo, no meio delas. Palavras compridas, complicadas, ameaçadoras, fúnebres. Um Requiem em cinco andamentos. Conhecia-as, não me enganaram. Sou filha de médicos, a terminologia arrevezada e áspera não tem grandes segredos para mim. Palavras bastardas de um latim que gerou outras tão bonitas, tão doces. Mas também pariu estas, afinal. Há os bons e os maus em todas as famílias. Aquelas palavras eram as ovelhas negras do latim. Abro sempre os envelopes, eu mesma. Se é de mim que falam, é a mim que têm que dar explicações primeiro. E faço-o sem testemunhas. Não quero que me vejam nos olhos o medo ou a euforia, ambos demasiado íntimos para subirem ao palco. Daquela vez, os envelopes apanharam-me desprevenida. O que traziam dentro era um violento murro no estômago, no meu estômago que não esperava murros. Foi desde aí que nunca mais abri os envelopes com a mesma souplesse, essa alegre certeza de que estava tudo bem. Ficaram-me na memória, gravadas a ferro e fogo, as cinco palavras que eram uma condenação explícita. Sem enfeites, sem disfarces, sem bálsamos. Só a sentença de morte, nua e crua. Mas afinal ganhei eu. Nessa altura não o sabia ainda, mas o meu optimismo salvou-me, uma vez mais. Ganhei eu, em todas as frentes. Venci as palavras, venci os envelopes mensageiros da escuridão. Passaram dez anos. Venci os envelopes, sim, mas eles rogaram-me uma praga, como vingança: a de ter que abri-los, para o resto dos meus dias, com um misto de medo e de esperança, mas nunca mais com a confiança que tinha antes. Há dez anos que os abro, há dez anos que ganho eu. Hoje foi dia de abrir envelopes, e uma vez mais me intimidaram. Mas hoje, uma vez mais, a caverna de Ali Babá só tinha pérolas e ânforas de ouro para mim.
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publicado por Ana Vidal às 00:05
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25 comentários:
De av a 15 de Abril de 2008 às 14:48
Olha, olha... e não é que me saiu mais um poeta??
Obrigada, Manecas. É muito bom ter um amigo como tu.
Beijo grande
De Anónimo a 15 de Abril de 2008 às 11:32
Depois do Old Friends...havia os envelopes...Como depois do nosso almoço, havia a tua consulta...

Depois da angústia que a cola grudava, há a alegria imensa da tua força...

Depois das tuas letras, há sempre uma lágrima que fica suspensa na dúvida de te dizer que estou ao pé de ti, ou simplesmente que te leio emocionado.

Um longo abraço...com muita amizade e carinho

Manecas
De av a 14 de Abril de 2008 às 12:44
Queridas Teresa e Once, muito obrigada! Beijinhos também para ambas.

Sofs, já recebi uma dessas tuas cartas e adorei, tu sabes. Podes mandar mais, é sempre tão bom ler-te...

Quanto ao patê... yuppi!!
;)
De Sofia a 14 de Abril de 2008 às 11:54
Eu gosto de envelopes, gosto de os abrir devagarinho, muitas vezes a medo, porque já muitos me deram desilusões, lágrimas! Tenho todos guardados, os das alegrias e os das tristezas! Escrevi inúmeras cartas, selei mil envelopes, às vezes com lacre! Adorava a ‘cerimónia’ de fechar o envelope, de pôr o selo, de deitar no marco do correio! Melhor só abrir a caixa-do-correio, tirar um envelope com o meu nome, abrir com cuidado e deliciar-me com a leitura! Durante a adolescência não passava mais de uma semana sem escrever cartas, sem as receber! Pelo correio, por-mão-própria, tudo era pretexto!

Ainda hoje mando cartas, recebo poucas, mas ainda as abro com a mesma emoção da adolescência! Sabes, se me tivesses conhecido há cinco anos, terias recebido mais cartas minhas, com mais páginas do que as que já te mandei (às vezes chegavam às quarenta, acredita!). Para os amigos, para ‘aqueles’ amores, para dizer aquilo que nunca me saiu de outra maneira, sem ser por escrito! Passava noites a escrever e muitas vezes a chorar sobre as cartas de papel perfumado, colorido, timbrado! Tenho saudades, acredita, mas às vezes a rapidez do e-mail seduz-nos mais! Quem sabe um qualquer dia destes retome esse velho hábito. Faço-te uma promessa, serás a primeira a receber tais testamentos! LOL

Maravilhoso o teu manifesto!

Beijos

P.S. Patê garantido, meio aldrabado, mas garantido! ;)
De Once In a While a 14 de Abril de 2008 às 09:31
e que nunca mais haja nada a não ser pérolas e ânforas, e um sorriso se esboce sempre que lido de uma assentada o conteúdo de tal envelope, se arquive o mesmo com um suspiro fundo de quem reteve tempo demais o inspirar .. ;)
Beijo hoje sentido e comovido com este seu pedaço de ser querida Ana .. e um abraço.
De Teresa Ribeiro (CF) a 14 de Abril de 2008 às 00:41
Ainda bem! Que esses malditos envelopes nunca levem a melhor, Ana. Beijinho e parabéns!
De av a 13 de Abril de 2008 às 16:33
É mesmo um manifesto, Rosa, acertaste em cheio. Um manifesto para exorcizar fantasmas.
Beijinho
De MariaV a 13 de Abril de 2008 às 13:27
Já disseram tudo, a propósito deste teu manifesto, vitorioso de força, lindo.
Só me resta deixar-te aqui um
beijo enorme, Ana.
De av a 13 de Abril de 2008 às 01:10
Agora comoveste-me, Pedro.
Um beijo
De PSB a 13 de Abril de 2008 às 00:55
Ana
Primeiro o conteúdo: estas vitórias anuais devem ser como que uma chamada à terra que te dão a capacidade do carpe diem sincero, que falta a tantos de nós. Como tudo na vida, só nos apercebemos das riquezas que temos a sorte de ter, quando elas nos faltam. E, a maior riqueza, suponho, é disto termos plena consciência.
Agora a forma: a tua escrita limpa, desempoeirada, espirituosa e tão realista, colocou-nos, aos que te lemos, esse teu envelope nas mãos, e emprestou-nos, aos que gostamos de ti, essa ansiedade que deves sentir em cada envelope anual que tens de abrir.
Sabes, claro, que estamos sempre contigo e que nos regozijamos todos com as boas notícias que te têm trazido. És uma Mulher cheia de força e de coragem, que nos dá a lição diária de não valorizarmos os pequenos nadas desta vida, mas antes nos concentrarmos no que é realmente importante para cada um.
Com um beijo admirador, faço votos para que os teus envelopes sejam sempre verdes.

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