Segunda-feira, 9 de Junho de 2008

Feira de Velharias (11)

 
Calma
 
A calma é daquelas coisas que só a vida e o tempo nos ensinam. E, mesmo assim, podemos viver uma vida inteira sem aprendê-la: não adianta lê-la nos olhos dos outros, ouvi-la da boca dos outros, percebê-la nos gestos e atitudes dos outros. A calma é muito mais fácil de aconselhar do que de praticar, mesmo para quem já passou por muitas tempestades e lhes sobreviveu.
E no entanto é um conceito linear, talvez o mais simples dos segredos: saber esperar. Esperar o tempo exacto para colher os frutos no momento certo, ganhando o prémio de não saboreá-los verdes e, por isso mesmo, ainda insípidos; respirar fundo e deixar passar a onda, para poder vir à superfície em seguida, não só ainda vivo como capaz de mais umas braçadas até à praia; deixar que alguma distância se interponha entre nós e a nossa voracidade espontânea, para que aquilo que queremos muito nos seja dado com prazer e não entregue por assalto à mão armada. Porque tudo o que se conquista lentamente tem o dobro do sabor e da duração.
A calma é um bem precioso, mas escasso. Nele radicam, tão só, a justiça e a sabedoria. E ao contrário da fama que tem, completamente injusta, não impede ninguém de viver plenamente e com arrebatamento. Muito pelo contrário, aliás. Que o digam as milenares sabedorias orientais, que o digam os tântricos. Difícil, mesmo, é entendermos isto. Somos viciados em emoções fortes, em adrenalinas fáceis e momentâneas. Temos pressa, e por isso atropelamos sensações e queimamos etapas, tudo para chegar mais cedo. E com isso perdemos, quase sempre, o prazer indizível da viagem.
 
(Tocando em frente - Maria Bethânia)

Nota: esta canção de Almir Sater (a prova de que até dos "bregas" podem sair criações magníficas), muito valorizada também pela voz inconfundível de Maria Bethânia, diz-nos tudo o que é preciso saber:

Ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sorriso porque já chorei demais. Hoje me sinto mais forte, mais feliz, quem sabe, só levo a certeza de que muito pouco eu sei, eu nada sei...
 

(Publicada pela primeira vez em Dez/2007)

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publicado por Ana Vidal às 11:37
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20 comentários:
De O Réprobo a 9 de Junho de 2008 às 12:54
Sem dúvida que a calma não obstaculiza a fruição, mesmo a das grandes adesões a maiores apelos. Pelo contrário, potencia-a, na medida em que evite a precipitação e falta de jeito comprometedoras.
Mas quem conheça a Ana fica com a impressão de uma tranquilidade activíssima que é gémea siamesa da calma.
Beijinho
De Ana Vidal a 9 de Junho de 2008 às 14:39
Gostei dessa tranquilidade activíssima... não sei se já sou assim, mas sei que tenho esperança de vir a ser!
De cristina ribeiro a 9 de Junho de 2008 às 13:31
Como queria interiorizar este post!...
"Águas agitadas debaixo de um- só aparente- espelho de lago calmo"...
De Ana Vidal a 9 de Junho de 2008 às 14:37
Também eu, Cristina! ;)
É sobretudo para mim própria que falo...
Mas enfim, acho que tenho vindo aos poucos a conquistar esse equilíbrio... com calma... (risos)
De sofia a 9 de Junho de 2008 às 14:46
'Todo mundo ama um dia, todo mundo chora, um dia a gente chega, no outro vai embora. Cada um de nós compõe a sua história, e cada ser em si carrega o dom de ser capaz, de ser feliz. ' Adoro a música.

Continuas a tentar passar da teoria à prática? Olha que eu com os tempos já me vou acalmando! Hoje é excepção, que é dia de ver o Limão, estou uma pilha! Mas na vida é preciso ter calma... Também gostava de interiorizar esta tua entrada!

beijinhos
De Ana Vidal a 9 de Junho de 2008 às 15:03
Vai correr tudo bem, miúda. E tens uma vida inteira pela frente para treinar a calma, não te preocupes!
beijinhos
De Mariana J a 9 de Junho de 2008 às 15:14
"E com isso perdemos, quase sempre, o prazer indizível da viagem".

A falta de calma pode, também, fazer-nos perder o "prazer indizível" do melhor destino?
De Ana Vidal a 9 de Junho de 2008 às 15:19
Boa pergunta.
Respondo-lhe com outra: e qual é o melhor destino?
De Mariana J a 9 de Junho de 2008 às 16:49
Talvez nem sempre saibamos qual é o bom.
Será que sabemos sempre qual é o mau?
Será que há viagens que já prevemos terem um desprazer quase indizível? E que mesmo assim fazemos?
De Ana Vidal a 9 de Junho de 2008 às 18:11
Há algumas dessas, sim. Acho que acontece a todos nós, não tanto por masoquismo como por uma ilusão de que não seja assim, "daquela vez"...
De OnceinaWhile a 9 de Junho de 2008 às 17:02
.. e por vezes na espera o fruto madeuro apodrece e cai Querida Ana .. e nós, diligentes e a querer acreditar que se pode renovar.
Não pode.

Excelente reflexão.
Beijinho
De Ana Vidal a 9 de Junho de 2008 às 18:08
Ah, sim, Once, esse é o outro extremo... igualmente mau.
Entre ambos há um momento certo, e descobri-lo é o mais difícil!
beijinho
De mike a 9 de Junho de 2008 às 20:31
Sempre ouvi que saber esperar é uma grande virtude e que quem espera sempre alcança. E que a calma é uma boa conselheira. Mas quem espera também desespera e a calma também nos amolece.
De Ana Vidal a 9 de Junho de 2008 às 21:47
Falou e disse, Mr. Mike.
;)
De fugidia a 9 de Junho de 2008 às 22:20
Querida Ana,
um dos meus defeitos é ser, demasiadas vezes, impaciente
(shiu, há quem não acredite... é porque disfarço bem: a idade já me ensinou a disfarçar...)


Beijo.
De Ana Vidal a 9 de Junho de 2008 às 22:58
LOL. Eu também era assim, agora já estou mais sensata (ou, se calhar, já disfarço melhor...)

beijo
De Júlia a 12 de Junho de 2008 às 19:14

eu com a idade piorei, ao invés de melhorar. raios!!!!
De Ana Vidal a 12 de Junho de 2008 às 20:48
Não me parece que isso seja muito bom, Júlia... lol
De Loira a 21 de Setembro de 2008 às 19:56
Como moderadora da comunidade com mais de 38.000 membros no orkut ,gostaria de fazer um adendo ao seu comentário sobre em incluir o musico na categoria"brega". Almir Sater é um dos mais renomados instrumentistas deste Pais, sendo vencedor de 2 Premios Sharps, o musico não está incluso nem na categoria brega, nem sertaneja, pois sua música está focada no folk regional. Por tras de suas letras, existem toda uma maneira peculiar de compor ,pois retratam o regionalismo do matogrossense, seu ritmo representa o estado do MS, sendo pautado em polcas,chamamés e guarania .

Te convido a conhecer um pouco mais desta cultura de Almir Sater e assim vc poderá refazer sua idéia erronea sobre esse brilhante músico que tanto agrega culturalmente ao Pais.

De Ana Vidal a 21 de Setembro de 2008 às 20:35
Agradeço as informações úteis e faço questão de afirmar que não quis de modo nenhum ofender Almir Sater. Talvez eu tenha empregue a palavra errada (em Portugal não se usa), mas de qualquer modo o que digo aqui dele é que criou uma canção magnífica. E quem cria uma canção magnífica só pode ser um músico brilhante...


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