Quinta-feira, 20 de Março de 2008

Observatório VI





Felicidade a prestações



Afinal, sou vaidoso. Quero dizer, hoje senti-me vaidoso, porque me senti importante. Melhor, fizeram sentir-me importante.
Na minha caixa de correio tinha uma carta que me era endereçada por uma entidade financeira, contendo ofertas e propostas para uma vida melhor. Não uma, nem duas, mas cinco, todas diferentes. Claro que fiquei... surpreso... sonhador... tentado... quem é que não quer uma vida melhor?...

Naquele envelope, de uma assentada só, ofereciam-me a possibilidade de um financiamento com vários dígitos, depositado directamente na minha conta bancária sem perguntas, sem respostas, sem quês nem porquês, de uma irresistível simplicidade sem burocracias (vi aqui a mão do Sr. Simplex), para gastar à minha vontade.

Depois, ofereceram-me uma reserva extra com mais dinheiro disponível, num cartão de supermercado que uso (necessário para me trazerem as comprinhas a casa), mais viagens a preços incríveis para os destinos paradisíacos com que todos sonhamos, telemóveis topo de gama (óptimos para aumentarem a minha já tão obesa vaidade) e, ainda, um leque esplêndido de belos electrodomésticos, daqueles que precisamos e que não precisamos, todos eles a fazerem tudo sozinhos (imprescindíveis, portanto), libertando-nos daquelas tarefas tão enfadonhas (sim, porque eu também ajudo em casa). Estava feliz. O dia não podia ter acabado melhor.

É claro que não somei as prestações de todas aquelas maravilhas, cada uma anunciando a excelente oportunidade que representava e que eu não podia perder. Tal como não o devem ter feito os milhares de famílias portuguesas endividadas até à raiz dos cabelos, com milhões de dívidas em créditos ao consumo e a viverem com uma mão à frente e outra atrás, sem dinheiro para comer nem para pôr gasolina no carrinho novo que as arruinou. Mas a carne é tão fraca e o sonho tão grande, que é difícil resistir a tantos convites e solicitações, ali disponíveis à distância de um gesto.

A iluminada política económica que nos rege fecha os olhos. Acha que sim, que assim se espevita o mercado, se desenvolve a economia e se promove o bem-estar das famílias. Fica tudo satisfeito e aí vamos nós na senda do socrático progresso...
Até que o último apague a luz...


Pedro Silveira Botelho
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publicado por Ana Vidal às 23:03
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9 comentários:
De av a 25 de Março de 2008 às 17:05
Obrigada, Capitão.
Boa semana para ti também. E usaste bem a palavra: "ideologia" é o termo certo para o consumismo desenfreado de hoje em dia. Agravado pela impossibilidade de praticá-lo sem compromisso de tudo o resto, num país que já está de tanga.
De Capitão-Mor a 24 de Março de 2008 às 18:28
Excelente texto! Esta coisa dos portugueses gostarem de viver em bicos de pés tinha de acabar nisto! Pena que se viva uma época em que a única ideologia que as pessoas adoptam é o consumismo desenfreado...

Desejo-te uma boa semana!
De Anónimo a 24 de Março de 2008 às 17:46
Caro Miguel olhe que você tem um estranho sentido de humor!
De miguel a 24 de Março de 2008 às 08:45
Um abraço para ti e para o Pedro: gosto, claro, dos textos do Pedro. E gosto também de me "meter" com as pessoas, brincando.Às vezes não resisto, apenas isso!
De av a 23 de Março de 2008 às 11:51
Beijinho para ti também, Júlia.
Uma boa Páscoa em meu nome e no do Pedro, que não está cá.
De Júlia Moura Lopes a 23 de Março de 2008 às 11:20
gosto de ler esse teu amigo.

beijinho de Boa Páscoa aos dois
De av a 22 de Março de 2008 às 23:26
Ó Miguel, ainda me hás-de explicar o porquê desta marcação cerrada com os textos do Pedro, desde o primeiro! Não é que ele precise da minha defesa (provavelmente ainda nem leu o teu comentário) mas só porque não percebo a razão. Ainda são ciúmes do convite para escrever no Porta do Vento?? Não me digas!
Quanto à tua cruzada em defesa do governo actual... olha, já nem sei o que dizer. Mesmo que não sejas filiado no PS, como dizes, um dia destes oferecem-te uma pasta de ministro! Prepara-te... é que não deve haver maior fidelidade do que a tua!
E não te preocupes com os meus amigos brasileiros, que são todos suficientemente cultos e inteligentes para perceber as expressões idiomáticas que usamos aqui em Portugal...
De miguel a 22 de Março de 2008 às 09:43
Pedro:

Texto bem escrito e certeiro como sempre, mas na minha opinião:

- há que exercitar um pouco da ironia queiroziana para arrombar de vez com a natureza humana e as instituições!

- A insistência no novel jargão " anti-establishment" tipo "vi aqui a mão do Sr. Simplex" ou "Fica tudo satisfeito e aí vamos nós na senda do socrático progresso..." e também a utilização de expressões idiomáticas como " viverem com uma mão à frente e outra atrás" ou " Mas a carne é tão fraca ..." deve causar uma confusão razoavel nos inúmeros irmãos brasileiros que procuram refúgio temporário no " Porta do Vento".

Sabemos todos que temos tudo em comum com os brasileiros menos a língua, mas não exageremos!!!

eheheh

um abraço
De estrelicia esse a 21 de Março de 2008 às 09:12
A mim já me aconteceu pior. Primeiro ofereceram-me crédito. Passados uns tempos já tinha dívidas por causa de um cartão que me enviaram e que nunca pedi ou utilizei. A trabalheira que tive para me livrar deles!

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