Segunda-feira, 7 de Abril de 2008

Amigos de talento - II


Sempre inventei histórias para os meus filhos, quando eram pequenos. Deixava correr a imaginação e as personagens iam mudando, ao sabor das perguntas que eles me faziam e dos seus desejos. Muitas vezes eram eles mesmos quem sugeria aventuras e peripécias, consoante o interesse do momento ou alguma coisa que tinham visto ou ouvido. Com uma infância vivida no campo, o imaginário infantil dilata-se substancialmente e ganha cores, cheiros e formas impensáveis para uma criança da cidade. Talvez por isso eles respondessem tão bem ao estímulo da participação na composição da história, acrescentando sempre pormenores mais ricos e dando vida a personagens engraçadíssimas. Frequentemente, eram eles que construiam toda a trama, sem se aperceberem disso.
Tenho as melhores recordações dessa época de partilha de sonhos e de loucuras imaginativas, em que me sentia muito próxima daquele universo mágico e me deixava conduzir, sem resistência, por entre seres fantásticos e mundos delirantes. Era com estes pensamentos que os meus filhos adormeciam, e muitas vezes também eu. Além das histórias, cantava-lhes canções de embalar com letras inventadas por mim, muitas vezes na hora, sobre músicas conhecidas. A única que sobreviveu ao tempo e às sucessivas mudanças de casa, escrita num papel amarrotado, foi uma letra que fiz para o meu filho mais velho. Lembro-me muito bem dessa noite de Verão em que a cantei pela primeira vez, de uma lua cheia e magnífica que entrava pelo quarto e abria as portas a todos os sonhos. Aos meus e aos dele...
Curiosamente, encontrei esse papelinho há uns anos. Sem fazer a menor ideia de qual era a música em que a encaixei nessa época (mais de vinte anos antes), gostei ainda do que tinha escrito e apeteceu-me que alguém a musicasse. Falei nisso à minha amiga Rita Vasconcellos, sabendo que ela se entusiasmaria com o projecto. A Rita é arquitecta de profissão, mas é também uma inspirada compositora, para além de outros múltiplos talentos. É, sobretudo, um espírito curioso e sensível, muito próximo ainda da inocência das crianças, como acho que todos gostaríamos de ser. Como eu calculava, achou graça ao desafio. Pedi-lhe que fizesse uma coisa simples, já que era uma "Cantiguinha de embalar", título que dei, logo ali, à canção que surgiria da nossa parceria. Sentou-se ao piano e começou a alinhavar uma melodia suave e delicada, como aquelas das caixinhas de música. Era exactamente isso que eu tinha imaginado para aquela letra. Deixei-a, nessa noite, enredada na sua criação, sabendo de antemão que iria gostar do resultado. Poucos dias depois, ligou-me. "Está pronta, vem ouvir." Lá fui, comovida e curiosa. E amei desde logo o casamento entre as minhas palavras simples e a música da Rita, que tão bem as tinha apreendido.
Por sugestão de amigos, concorremos com esta canção ao Festival da Canção da RTP (há 3 anos). Para isso, demos-lhe o título de Branca Lua e gravou-se uma maqueta em estúdio, com a própria Rita ao piano e a bela voz da Mafalda Sachetti "emprestada" para o efeito. Não ganhou, claro, nem nós esperávamos que isso acontecesse. É uma música/letra que está muito longe do perfil das canções que habitualmente ganham festivais. Mas todo este processo nos deu um enorme gozo e nos aproximou como amigas. Depois disso, decidimos fazer outras parcerias musicais. Estão em fase de acabamento várias canções, e algumas delas farão parte de um interessante projecto musical em que a Rita está agora a trabalhar (não posso adiantar mais sobre o assunto porque ainda está no segredo dos deuses, mas acredito que vai ser um êxito).
Aqui fica a Branca Lua, em maqueta, porque ainda não encontrou uma voz que lhe desse vida definitivamente. Gostaríamos muito que isso acontecesse, um dia.
BRANCA LUA

Branca lua traz um sonho
risonho
ao meu filho adormecido
Deixa-o partir num veleiro
ligeiro
pelo azul desconhecido
Deixa-o tocar as estrelas
prendê-las
entre os dedos pequeninos
como se fossem brinquedos
segredos
que só sabem os meninos

Dá-lhe asas ao pensamento
fermento
duma vida por escrever
que enquanto tudo se espera
quimera
tudo pode acontecer
Ó Lua, quando ele partir
a sorrir
no seu corcel de magia
pede ao sol que se detenha
e não venha
trazer cedo a luz do dia


(Como tenho estado com problemas no Imeem, aqui fica o link se não conseguirem ouvir: http://anavidal.imeem.com/music/MKNuQSuG/mafalda_sachetti_branca_lua/)

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publicado por Ana Vidal às 17:00
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15 comentários:
De Anónimo a 9 de Abril de 2008 às 20:29
Muito bem!

Pedro Correia
De RAA a 8 de Abril de 2008 às 23:15
Mas que bem, vizinha! Estou impressionado.
De MariaV a 8 de Abril de 2008 às 19:48
Ai que amor!
De av a 8 de Abril de 2008 às 16:35
Já mandei, miúda.
Bjs
De Sofia a 8 de Abril de 2008 às 15:46
Está na hora da minha sesta... e olha que acho que vou pôr esta a tocar, para poder adormecer melhor, que não tenho aqui as 'nossas' caixinhas de música, nem a minha voz de embalo. Já me tinhas mostrado e adoro, o poema e a música! Parece que em tua casa há sempre músicas de embalar, nem que seja a do Vitinho... Mas olha que me comoveste mais desta vez, sabes o porquê, não sabes?

Podias mandar-me por e-mail para eu pôr no meu mp3 e ouvir mais vezes antes de irmos dormir?

beijinhos miúda
De Once In a While a 8 de Abril de 2008 às 15:02
delicioso :)
De Pitucha a 8 de Abril de 2008 às 07:48
Adorei!
Beijos e parabéns às autoras e à cantora.
Beijos
De av a 8 de Abril de 2008 às 01:38
Agradeço a todos, mas isto é mesmo só uma cantiguinha de embalar (de ninar, para os meus amigos do Brasil). Por isso, JG, o maior elogio foi o teu. Fez-te sono? Era isso mesmo que se pretendia!
Beijos
De samuel a 8 de Abril de 2008 às 01:32
Olha que cantiga gira!...

Abreijo
De JG a 8 de Abril de 2008 às 01:23
A estas horas tardias, como diria a nossa amiga IMF, esta quase canção de ninar deu-me vontade de ir fazer companhia ao João Pestana.

Estou a brincar:)))

Muito bela a canção.
E fico a torcer para que os deuses cheguem a um acordo, que façam a obra e a revelem quanto antes.

Beijos

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